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19 agosto 2026

Enfarta Brutos

Enfarta Brutos #0
Enfarta Brutos é um pequeno fanzine da autoria de Tetrateles, que começa com uma criativa divagação desenhada sobre os dilemas existenciais do artista / desenhador e as suas ansiedades e sentimentos de culpa: "ou por me isolar para desenhar ou por não desenhar!"
A reflexão sobre os momentos de desmotivação no desenho e na escrita e na constatação que para uma obra ter qualidade e obter reconhecimento público, implica esforço e preparação sobre o que se vai escrever e desenhar antes de começarmos a fazê-lo.
No final do fanzine são apresentadas duas pequenas histórias: - uma sobre a falta de vontade de ir para o ginásio e a aversão ao esforço físico e aos berros motivacionais dos treinadores. A outra, brinca com humor e sentido lúdico com a analogia entre a cadeia prisional e a quadrícula do papel.
Este fanzine tem distribuição gratuita, sendo possível contactar o autor através do endereço electrónico: tetrateles88@gmail.com.
Enfarta Brutos #0, Setembro de 2024, 20 págs, fotocópia a preto & branco; capa em papel colorido, 10,1x14,2cm. Tiragem: 33 exemplares.

Enfarta Brutos #1
Resenha escrita por M.F. e publicada no jornal A Batalha n.º 303, de Dezembro de 2025: "Talvez seja sinal de maturidade da BD falar dela própria. Ou dos autores exporem as suas dúvidas existenciais. Se calhar estas BDs poderiam estar num volume da antologia Massa Crítica... Depois de um número zero, eis um Tetrateles a avançar na sua carreira de BD, com todo o sarcasmo - acompanhado por um coro de gato e cão a gozarem com a cara do ser humano - a largar os seus dramas de artista em dúvida para ir conquistando uma confiança para criar BD. Estranho mundo o nosso, com tanta merda a acontecer e os artistas sem saber o que contar... Já a convidada especial deste zine, a Beatriz Brajal, faz um teatrinho com figuras de cerâmica do período Olmeca (900-600 a.c.), para gozar de alto e com nudez com as ânsias de fim de mundo."
Enfarta Brutos #1, Abril de 2025, 40 págs, impresso a preto sobre papel reciclado; capa em papel colorido, 13x18cm. Tiragem: 44 exemplares.

Enfarta Brutos #2

O convidado para participar neste Enfarta Brutos é André Pereira, que contribui com a banda desenhada 'Dream Journal - 17 Nov, 2025' num registo diaristico surreal. Por seu lado, Tetrateles apresenta três pequenas histórias, começando com 'Enfarta Brutos' onde os animais adquirem comportamentos humanos e exibem também as piores características das pessoas.
A segunda bd intitula-se 'Eremita', muito bem conseguida em termos narrativos no tocante ao texto e ao desenho, afigurando-se como um dos trabalhos mais conseguidos de Tetrateles.
Ao longo da publicação surgem diversos desenhos soltos a servirem de separadores, terminando com a prancha 'Magia'.
Enfarta Brutos #2, Dezembro de 2025, 28 págs, impresso a preto sobre papel reciclado; capa em papel colorido, 12,8x18cm. Tiragem: 44 exemplares.

10 agosto 2026

Viriatvs

Fanzine editado pelo histórico GICAV de Viseu, destacando neste nono número a realização do Encontro Nacional de Bedetecas. No editorial, Carlos Almeida reitera a ideia que Viseu voltou a ser a capital nacional da banda desenhada, mas apesar disso, anunciam-se nuvens negras no horizonte - o próximo número do Viriatvs poderá ser o último, devido à falta de apoios públicos.
Não deixa de ser surpreendente o número de bedetecas e fanzinetecas existentes em Portugal, o que poderá ser um indicador do dinamismo do sector e do crescimento do interesse nestas temáticas.
Esta edição denota uma linha editorial típica de bedéfilos da velha guarda, de vincado gosto clássico, dando destaque a autores como Romain Hugault, Vicente Segrelles e Luis Royo. O primeiro álbum em destaque é 'O Corcunda de Notre Dame' de Georges Bess, autor especializado em adaptações de clássicos da literatura.
Apresenta-se também o obituário do autor francês Christian Godard ('O Vagabundo dos Limbos', 'Os Dossiers Arcanjo', etc.), falecido aos 92 anos de idade.
Publica-se uma bd de duas páginas, desenhada por Carlos Rico e texto de Ana Sofia Poeiras, de teor educativo ambiental.
Partindo de uma referência feita na Revista do jornal Expresso por Clara Ferreira Alves, comparando Luís Montenegro ao personagem tintinesco Oliveira da Figueira, António Martinó corrige e esclarece que o personagem é bastante mais complexo do que a descrição apresentada pela colunista.
O segundo álbum em destaque é 'Ar-Men: O Inferno dos Infernos' da autoria de Emmanuel Lepage e publicado pela Ala dos Livros.
As derradeiras páginas são dedicadas a algumas notícias sobre o Festival de BD de Beja, a 'Grande Festa do Tex' e a exposição itinerante e as publicações celebratórias dos 500 anos de Camões.
A capa e outras ilustrações de Viriato são da autoria de Daniel Almeida.  
Viriatvs #9, 2025, 28 págs, offset a cores, 21x21cm. Edição: GICAV. Viseu.

03 julho 2026

Mal-Cheirosa

Mal-Cheirosa  apresenta uma delirante conversa entre uma protagonista a atravessar uma crise existencial com o seu próprio pivete. A protagonista tem um acesso de raiva (temper tantrum) uma explosão emocional intensa, exprimindo sentimentos fortes como frustração, fome ou cansaço, resultando numa espécie de birra, que vai ser debatida com o seu duplo/mau-cheiro.
Os desenhos de Amargo (Margarida Ferreira) são muito orgânicos e femininos, utilizando marcadores de feltro, para definir os contornos das suas personagens e dos diálogos, que consistem em divagações e pensamentos sobre o acto de (não) tomar banho e as coisas que se podem fazer em alternativa.
A protagonista procura convencer-se que tomar banho é uma perda de tempo e que pode utilizar esse tempo de modo mais eficiente e produtivo, considera até que abdicar do banho é uma atitude subversiva e de afirmação da sua própria identidade.
O seu pivete/mau-cheiro acaba por funcionar como a voz da sua consciência, procurando convencê-la a adoptar uma atitude mais sensata e razoável.
Esta publicação teve uma nova versão lançada em inglês com o título Stinky
Mal-Cheirosa, Fevereiro de 2025, 20 págs, fotocópia a preto em papel reciclado; capa em cartolina verde, 14,5x21cm. Tiragem: 30 exemplares. Porto.

08 junho 2026

Joga Forte

Joga Forte #11
Excelente fanzine dedicado ao mundo dos jogos, sejam jogos de tabuleiro, videojogos a emular jogos de tabuleiro, jogos de guerra, de dados, cartas, etc.
Esta edição contou com a capa desenhada por Sara Pinto e apresenta um excelente arranjo gráfico, muita informação pormenorizada sobre novos jogos, destacando os jogos e os eventos realizados em Portugal.
Sem dúvida, que Joga Forte é um dos melhores fanzines temáticos e funcionais que se publicam actualmente.
Joga Forte #11, Dezembro / Janeiro de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco; capa a cores, 21x29,7cm. Edição: Artmatriz. Viana do Castelo.

Joga Forte #12
A comemorar dois anos de publicação, a ideia consolida-se e começa a ganhar ambição. Na capa, um trabalho de Hugo Maciel, inspirado no filme 'The Thing' de John Carpenter, que deu também origem a um jogo de tabuleiro.
Na rúbrica 'Anatomia do Jogo' Pedro Santos Silva conta-nos como foi criado e desenvolvido o jogo '12 Monks'.
As páginas centrais apresentam a quarta entrada explorando o nicho dos wargames de tabuleiro.
Os membros da comunidade são também convidados a apresentar parte da sua colecção de jogos, comentando os seus favoritos, fomentando o gosto pelos jogos principalmente na sua vertente lúdica e de convívio.
Joga Forte #12, Fevereiro / Março de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco; capa a cores, 21x29,7cm. Edição: Artmatriz. Viana do Castelo.

28 maio 2026

DiplomaCio

DiplomaCio é apresentado por Bia Kosta como "uma curta crónica ilustrada sobre o (não) discurso com a extrema direita.
Especialmente em conversas sobre *se há realmente um genocídio* ou se *a flotilha está ou não a "provocar" Israel*... esta Gata fica sem palavras. Um lembrete de poupar o nosso latim e dirigir a nossa ação, a nossa raiva e a energia da nossa vontade (e do nosso Cio) para o que realmente importa."
A gata vai narrando, de forma muito desenvolta e expressiva, a sua evolução enquanto interveniente em conversas ou discussões - mudando de um inicial discurso refilão e irascível, para um estilo mais descontraído e leve - em suma, assumindo uma atitude mais diplomata.
No entanto, quando são ultrapassadas certas linhas vermelhas, a diplomacia não funciona de todo. Nestes casos, a gata não está com contemplações e vira fera novamente!
DiplomaCio, Outubro de 2025, 8 págs., impresso a preto & branco, 14,3x18cm. Tiragem: 69 exemplares.

20 maio 2026

Borda Fora


Borda Fora assinala a estreia de Marta Espírito Santo, narrando diversos episódios da vida de Madame Poppy. A autora refere que criou esta personagem para projectar o seu mau humor, falta de paciência, e também memórias das suas bisavós.
Partindo de um conjunto de personagens antropomórficos que orbitam em torno da casa de Madame Poppy, uma mulher sempre de lenço na cabeça e avental à cintura, à moda antiga, que prepara umas mezinhas para as maleitas do corpo e da alma dos habitantes da aldeia, num ambiente marcado por um arreigado atavismo.
Apesar de as histórias serem apresentadas por capítulos distintos, há uma certa continuidade narrativa e das personagens, algumas algo tipificadas, e facilmente reconhecíveis, outras desenvolvidas com bastante  profundidade. Tudo temperado com um insinuante sarcasmo e o humor seco de Madame Poppy.
Bastante prometedor. Venham os próximos episódios!
Borda Fora, Novembro de 2025, 24 págs, impresso a preto & branco, 14,5x20,5cm. Tiragem: 30 exemplares. Porto.

29 abril 2026

Fernando Pessoa - 4 Poemas Ilustrados

José Lopes é um talentoso autor bastante subvalorizado e pouco publicado fora do âmbito dos fanzines. Tem agora oportunidade de publicar na Colecção Toupeira da Bedeteca de Beja, e apresenta o volume Fernando Pessoa - 4 Poemas Ilustrados.
Começa com 'Ai, Margarida' de Álvaro de Campos, numa linha clara e minimalista, realçando o burlesco romântico com toda a elegância.
'Eros e Psique' de Fernando Pessoa, é decantado num misterioso jogo de sombras com ecos medievais, com príncipes encantados e princesas adormecidas em castelos inertes.
O 'Demogorgon' com Álvaro de Campos a conectar a mitologia grega com a angústia citadina, um mistério por desvendar, que José Lopes vai compondo fugazmente num tom nocturno vagueando veloz entre o sonho e o real.
O último poema adaptado por José Lopes é 'Monstrengo' de Fernando Pessoa, onde o negrume marítimo tudo ofusca, emergindo apenas as palavras do homem do leme e a sua vontade indómita de cumprir um destino, vencendo o medo.
Fernando Pessoa - 4 Poemas Ilustrados [Colecção Toupeira #19], Maio de 2025, 24 págs, impressão a preto & branco; capa a cores, 18x26,5cm., Tiragem: 400 exemplares. Edição: Bedeteca de Beja.

13 abril 2026

Dores de Crescimento

Este fanzine foi lançado no contexto da exposição ”Dores de Crescimento” de Ana Maçã, produzida pela Manada Editions, uma pequena editora independente localizada em Xabregas, Lisboa. O atelier / escritório está aberto a residências artísticas temporárias e é dessa partilha do espaço que resultou a exposição e fanzine “Dores de Crescimento”.
Ana Maçã é uma artista que trabalha em torno dos fragmentos da memória e da nostalgia, e para esta publicação, desenhou diversos personagens que habitavam a sua cabeça há algum tempo. Os brinquedos perdidos na infância, a dopamina a intermediar as experiências emocionais, as fantasias do faz-de-conta.
O fanzine é muito artesanal, mesclando diversos tipos de papel diferentes: papel quadriculado, papel colorido recortado e nas páginas centrais uma folha de papel reciclado de tamanho A3 a meio.
Amanda, a responsável pela Manada Editions, escreveu o seguinte sobre esta publicação: "As imagens aqui surgiram dos seus brinquedos da infância e algumas delas foram feitas com maquiagens antigas da sua mãe. Os materiais são todos dos anos 90, época em que a Ana cresceu em São João da Madeira, no norte de Portugal.
Organizar os desenhos nessa publicação me levou para um lugar muito bonito e distante mas também triste. Afinal, crescer nem sempre é fácil."
Dores de Crescimento, Setembro de 2025, 16 págs, fotocópia digital a preto & branco; capa a cores, 14,9x21cm. Edição: Manada Editions. Lisboa.

12 abril 2026

Sludge

Na apresentação, Pedro Costa (o autor) refere que o fanzine foi "100% composto (de capa à contra-capa) por desenhos feitos no meu emprego, e relembrou-me que o aborrecimento é o meu melhor catalisador pessoal para a criação. O nome "Sludge" representa o estado do meu cérebro no trabalho e também a tinta preta que, de alguma maneira, me suja sempre as mãos todas."
De facto, Sludge compila um conjunto de desenhos levemente grotescos e escatológicos, onde o traço desliza muitas vezes para a composição de figuras que se transformam em letras soltas ou em palavras compósitas.
As figuras desenhadas por Pedro Costa adquirem frequentemente formas semelhantes a personagens de desenhos animados surrealistas, absurdos e caóticos do género 'Uncle Grandpa', 'Regular Show', 'Gumball', 'Spongebob', etc.
A avaliar pelos desenhos aqui apresentados, não consigo imaginar qual é o emprego de Pedro Costa, mas não o invejo...
Sludge, Setembro de 2025, 16 págs, impresso a preto & branco; capa em papel colorido, 14,9x21cm. Tiragem: 30 exemplares. Porto.

11 abril 2026

Bikini Kill

Bikini Kill é um fanzine devotado à temática feminista, apresentando-se numa folha de tamanho A3, com um corte horizontal central, que permite uma dobragem em 8 páginas, escrito em inglês e criado por Rubkk. Assume-se como um misto de manifesto e de homenagem às mulheres notáveis do punk e do rock.
Começando pelo punk, assinalado como o momento onde as mulheres deixam o papel secundário a que estavam remetida, para assumirem maior protagonismo, ilustrado por Poly Styrene, a líder da banda X-Ray Spex.
O movimento riot grrrl surgido nos primórdios dos anos 90, é apontado como outro dos marcos importantes para a emancipação das mulheres no mundo da música, servindo de inspiração para todas as outras áreas artísticas. 

Bikini Kill, 2025, 8 págs, impressão digital a preto sobre papel colorido, 11x15cm.

30 março 2026

Inspector Pintas

Inspector Pintas é uma história policial protagonizada por animais antropomórficos, com texto de André Mateus e com desenho de Filipe Duarte. Nesta história, uma mulher morre em circunstâncias suspeitas e o seu esposo é a única testemunha e beneficiário do respectivo seguro de vida. Não há provas, não há arma do crime, a polícia não tem nada.
O Inspector Pintas é chamado à esquadra para interrogar o suspeito e tentar descobrir a verdade sobre este caso envolto em mistério, com um desfecho surpreendente!
Inspector Pintas, Novembro de 2025, 24 págs., impresso a preto & branco, 17,3x24,3cm.

26 março 2026

2125

Num futuro ano 2125, a autora imagina uma espécie de distopia invertida, onde um agente completamente improvável, percebido inicialmente como o invasor, acaba depois por funcionar como principal agente de mudança benigna.
Partindo de um presente caracterizado pela exaustão emocional, isolamento, e desconexão provocados pelo ambiente urbano frenético e desumanizado, induzindo um ambiente de extermínio do invasor, do estrangeiro, visto como uma praga, mas que em vez de sucumbir, consegue adaptar-se melhor às circunstâncias e prosperar contra todas as probabilidades.
Matilde Basto utiliza um dispositivo relativamente convencional de quatro vinhetas por página, mas enquadra-as por molduras com diferentes formas e motivos figurativos, conferindo-lhes bastante organicidade.
À semelhança do anterior Casal de Santa Luzia a autora volta a compor uma fábula onde animais comuns (dantes os gatos, agora as baratas) coabitam com os humanos em espaços urbanos onde se intui um ameaçador mal-estar, uma sensação de desajustamento, de não pertencer à cidade.
Inicialmente, as baratas são representadas como espectros luminosos, em ambientes pontilhados por formas estrelares (idênticas à forma do símbolo do Gemini, talvez a simbolizar uma inteligência superior), e num processo gradual de alteridade, conforme os insectos vão sendo melhor conhecidos e integrados no quotidiano da cidade, vão adquirindo formas mais definidas e simpáticas.
2125 foi realizado para a exposição virtual da 'StoryTellers' no Parque Silva Porto, em Lisboa, que decorreu entre Setembro e Dezembro de 2025.
2125, Dezembro de 2025, 24 págs., impresso a preto & branco; capa em cartolina cinzenta, 17x22cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #44].

05 março 2026

Pregões e Declarações

Pregões e Declarações: Amor, Partilha e Ódio antes da vida online, Ano 1 - 1985, recupera uma extensa selecção realizada por José António Moura de anúncios publicados em 1985 na secção "Pregões e Declarações" do Jornal Blitz. Não deixa de ser nostálgico e curioso reler estas páginas para quem leu na altura em que foram originalmente publicados. Por outro lado, é penoso, pois a esmagadora maioria dos pregões é bastante básica e repetitiva (ódio aos Wham, rivalidade norte/sul; Lisboa/Porto, etc.). Há também bocas racistas dirigidas aos pretos, que hoje, jamais seriam publicadas.
Na introdução, conhecem-se os testemunhos de alguns dos responsáveis pelo jornal (Manuel Falcão, Teresa Ruivo), das suas influências e acasos técnicos que acabaram por dar forma ao Blitz.
O texto de apresentação desta publicação, intitulado "Irreal Social" refere que "magnífico exemplo das paixões tribalistas em torno da música, a secção Pregões e Declarações no jornal Blitz revolucionou, em Portugal, a comunicação informal entre pessoas maioritariamente sem acesso aos media. Num tempo agora cronologicamente longínquo mas psicologicamente mais ainda, exerceu-se assim o direito de opinião e desabafo num espaço alargado e muito diferente das páginas de anúncios ou correspondência de leitores.
Já descrita como "a primeira rede social da juventude portuguesa", aquando das comemorações dos 40 anos do Blitz, a secção manteve-se durante 16 anos entre Fevereiro de 1985 e Fevereiro de 2001. A longevidade revela que o jornal não podia abdicar dos Pregões sob pena de uma quebra nas vendas, mas também revela a continuada necessidade de um tal fórum de expressão.
Formar bandas e vender instrumentos e discos; evidências da economia paralela das gravações pirata em cassete; polémicas fogosas em relação a artistas e seus respectivos fãs; defesas e ataques a personalidades da rádio (demonstra a relevância que o meio ainda tinha); drogas e alienação; comentário político e social; focos dispersos de homofobia, misoginia e racismo, mais frequentes de bairrismo e clubismo; misantropia; mas também moderação e declarações de amor; muita solidão e poesia; utopias.
Grelhas com 250 caracteres para preencher e enviar por correio, nenhuma garantia de publicação. Registo em papel do espectro de características humanas mais tarde transferidas para as caixas de comentários e fóruns online. Trolls, paladinos, idealistas, haters, moderados. Escolheu-se o ano de estabelecimento dos Pregões e Declarações e dele seleccionámos exemplos que podem ajudar a formar um retrato da juventude portuguesa no ano de 1985. Incompleto, sim, e parcial, filtrado a partir da quantidade esmagadora de mensagens e da crescente vulgarização de muitas delas. Mas esclarecedor."
Pregões e Declarações, Dezembro de 2025, 68 págs, risografia a preto sobre papel texturado de 120g., 14,8x20,8cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Holuzam. Lisboa.

02 março 2026

Dois Bailarinos Ensaiam Le Parc

"Le Parc" foi criado em 1994 pelo coreógrafo Angelin Preljocaj para o Ballet da Ópera de Paris. O bailado, distendendo-se em três actos, explora os jogos e os códigos do amor com leveza e sensualidade, ao som da música de Mozart.
A sinopse da peça de bailado insinua que "num jardim de estilo francês, quatro cupidos modernos ditam o ritmo das conquistas românticas. As pessoas procuram-se, flirtam, observam, desejam e rejeitam, mas o orgulho acaba por ceder e as paixões há muito reprimidas são finalmente libertadas."
Segundo o coreógrafo o que é fascinante em "Le Parc" é o facto de "cada geração lhe trazer a sua própria sensibilidade, sublinhando a forma como os jovens bailarinos da Ópera, muitos deles a descobrir estes papéis pela primeira vez, redefinem as relações homem-mulher representadas em palco: "um ballet que é simultaneamente sensual, travesso e profundamente humano".
Os desenhos de Matilde Feitor, esboçados e elegantes, capturando com sensualidade os jogos de sedução, enquanto os bailarinos (par amoroso) rodopiam enleados em intermináveis pas de deux.
Dois Bailarinos Ensaiam Le Parc, Junho de 2025, 8 págs, impresso a preto sobre papel reciclado, 13,8x21cm.

25 fevereiro 2026

Hourly Comics Day

 
Em Hourly Comics Day de Rita Mota, vamos acompanhando um dia na vida da personagem / autora, começando pelo acordar de manhã, ainda sob os efeitos da noite anterior. Um quadradinho / vinheta isolado em cada página para cada hora do dia. Tudo escrito em inglês. O fundo laranja entorpece os desenhos e os textos. Os filmes (e as séries), uma cinefilia que julgávamos fora de moda, são um dos eixos à volta dos quais se "organiza" e encara o dia.
As refeições rápidas ou improvisadas, um certo desleixo exibido sem vergonha, a mãe e o instável equilíbrio das relações familiares.
Os estados de alma que se convocam para acicatar a criatividade. O trabalho procrastinação. A música... Cocteau Twins e Harold Budd?!? os jovens ainda escutam isto? O fantasma de Laura Dern a pairar incessantemente.
Hourly Comics Day, Março de 2025, 24 págs, impresso a preto sobre papel laranja; capa em papel branco, 13x21cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Goteira. Porto.

09 fevereiro 2026

Fora de Campo

Fora de Campo #0
O amor é o tema central do número inaugural do Fora de Campo, um fanzine muito cinéfilo editado por Matilde Feitor.
O amor nas mais variadas cambiantes, é decantado através das suas múltiplas representações cinematográficas.
Composto por textos escritos Sofia Belém, Carolina Ramos, João Ruy Faustino, José Feitor e Matilde Feitor sobre filmes marcantes como "Good Bye Lenin!" (2003, Wolgang Becker), "Aloha Bobby and Rose" (1975, Floyd Mutrux), os seis filmes da série "Comédias e Provérbios" (1981-1987) de Eric Rohmer, "Kids Return" (Takeshi Kitano, 1996) e Mad Detective (Johnnie To, 2007).
Além dos textos publicados na sua forma manuscrita, cada um dos filmes é objecto de um desenho criado por Sofia Belém, Ariana Barros, Ema Caetano, Amália Bragança, Matilde Feitor e José Feitor.
O "tio" Farrajota contribui com uma banda desenhada metendo churrascão, "Perseguindo Amy" (Kevin Smith, 1997), "Até ao Amanhecer" (Richard Linklater, 1995), e finalizando com o romance excessivo lynchiano "Wild at Heart".
Outros filmes igualmente marcantes são referenciados através de ilustrações, como "Paterson" (Jim Jarmush, 2016), "Blue" (Hiroshi Ando, 2002), "Domicile Conjugal" (François Truffaut, 1970), "Rashomon" (Akira Kurosawa, 1950), entre outros.
Os inevitáveis "Trás-os-Montes" (António Reis / Margarida Cordeiro, 1976) e "A Desaparecida" (John Ford, 1956), também são representados por quatro fotogramas, encimando uns versos de Manuel Guerra.
Fora de Campo #0, Verão de 2022, 36 págs, impresso a preto & branco; capa em cartolina craft, 14,9x21,5cm. Tiragem: 50 exemplares. Edição: Bancarrota.

Fora de Campo #2
Além da editora Matilde Feitor, contribuem para este número do Fora de Campo, dedicado à presença feminina no cinema, os seguintes autores: Emília Silva, Sofia Belém, Amália Bragança, João Salvador, Feno Dias, Leonor Pupo, Micaela e Marco Almeida.
A 2.ª edição, apresentando uma capa diferente, teve uma tiragem de 20 exemplares.
Marcos Farrajota referiu o seguinte no blogue da Chili Com Carne: "Uma grupeta com a Matilde Feitor à cabeça celebra o Cinema em forma de fanzine A5, assim "old-school", escrito à mão, tecnofobista e com razão nos tempos saturados de digital. Gostei tanto de participar no primeiro número que nunca mais fiz BD até hoje. Neste novo número dedicado "à presença feminina no Cinema" topa-se a quase ausência de textos. Um problema que parece estar a afectar todas as publicações amadoras ou semi-profissionais. Se antes as "redes sociais" eram espaços de escrita - os blogspots e wordpress - com os "Fezesbook" & "Insgrana" parece que as pessoas desabituaram-se a escrever. Se por um lado há os académicos que cagam cinco "papers" por semana com o jargão científico todo certinho, por outro estes deixaram de saber escrever para leitores leigos. E o pior são esses mesmo leigos, escritores em potencial, que não se sentem à vontade para o fazer e que desistiram, preferindo meter fotos sobre um concerto (e do "brunch") invés de uma resenha escrita. Se as pessoas desistirem de escrever, estamos fodidos, nem é preciso Trumps para acabarem com ministérios da educação para voltarmos à barbárie. Pode-se até dizer que as novas gerações são mais visuais. Sim é verdade mas além de isso ser uma desculpa fácil para não se tentar escrever também não é uma grande vantagem porque olhando para as colaborações deste fanzine sente-se uma homogeneidade de estilos gráficos, sem haver alguém que faça algo de "profundamente errado" para destacar. Saiam da casca, sff. Ah, sim, destaque pra BD de Sofia Belém apenas por ser isso mesmo, uma BD!"
Fora de Campo #2, Janeiro de 2025, 36 págs, impresso a preto & branco; capa em cartolina de cor, 14,9x21cm. Tiragem: 10 exemplares (1.ª edição). Edição: Bancarrota.

07 fevereiro 2026

Noite de Chuva

A chuva que começa a cair durante o passeio nocturno serve de pretexto para entrar no café que há muito se deixou de frequentar. Lá dentro, a loira oxigenada atrás do balcão continua boa como o milho. Enquanto beberica um café quente, as fantasias eróticas desencadeiam vários devaneios que misturam o sonho molhado e a realidade fria.
As fantasias eróticas com a loira do café são recorrentes, mas sempre interrompidas abruptamente. Os desastres sucedem-se e o perigo espreita em todo o lado, numa espiral entrecortada por refrões de temas musicais pop conhecidos por todos.
Nesta Noite de Chuva, imaginada por Amadeu Escórcio, o mergulho forçado no mar de Neptuno, desencadeia uma improvável homenagem a Luiz de Camões.
Noite de Chuva, Setembro de 2025, 32 págs, fotocópia digital a preto & branco; capa a cores, 14,5x20cm. Edição: O Gato Que Mia.

23 janeiro 2026

Solar - The Obsidian Whale

Dando continuidade ao universo dos Solar Sailors, o livro-jogo Solar: The Obsidian Whale é um jogo de ficção científica criado por Daniel da Silva Lopes, onde cada escolha determina o destino imediato.
Neste livro-jogo propõe-se uma exploração pela nave espacial The Obsidian Whale abandonada, descobrir os seus segredos, mergulhar na sua escuridão e enfrentar desafios surpreendentes. Cada caminho conduzirá a um resultado diferente. 
A arte da capa é da autoria de Pedro Potier, definindo a ambiência que iremos encontrar ao longo do jogo. No interior, desenvolve-se uma mecânica de jogo que combina um baralho de cartas com os clássicos dados D6, abrindo uma espécie de portal de entrada para um universo editorial e criativo em permanente expansão.
Solar - The Obsidian Whale, Maio de 2025, 48 págs, impresso a preto & branco; capa a cores, 15,7x23,8cm, Tiragem: 200 exemplares. Edição: Gorila Sentado. Porto.

21 janeiro 2026

Filó

Filó nasceu em África, mas veio estudar para Portugal. Engravida, casa-se, perde o filho no parto e descasa-se. Volta a casar-se, mas a vida teima em não encarreirar. Arranja um amante, para tentar enganar a solidão e a tristeza. As escapadas sucedem-se semanalmente e Filó finge estar muito apaixonada, mas apenas tenta enganar o seu coração.
As pequenas histórias contadas por Isa Bruno, compostas com colagens e desenhos feitos usando marcador preto em traços ágeis, são singelas vinhetas arrancadas a um quotidiano de amargura e desgosto, pairando sempre a impossibilidade de alcançar a felicidade.
Filó, Setembro de 2025, 16 págs., impressão a cores; capa em papel colorido, 14,9x21cm. Edição: O Apókrifo.

11 janeiro 2026

Stinky

Stinky é a versão em inglês do fanzine Mal-Cheirosa, apresentando uma delirante conversa entre uma protagonista a atravessar uma crise existencial com o seu próprio pivete. A protagonista tem um acesso de raiva (temper tantrum) uma explosão emocional intensa, exprimindo sentimentos fortes como frustração, fome ou cansaço, resultando numa espécie de birra, que vai ser debatida com o seu duplo/mau-cheiro.
Os desenhos de Amargo (Margarida Ferreira) são muito orgânicos e femininos, utilizando marcadores de feltro, para definir os contornos das suas personagens e dos diálogos, que consistem em divagações e pensamentos sobre o acto de (não) tomar banho e as coisas que se podem fazer em alternativa.
A protagonista procura convencer-se que tomar banho é uma perda de tempo e que pode utilizar esse tempo de modo mais eficiente e produtivo, considera até que abdicar do banho é uma atitude subversiva e de afirmação da sua própria identidade.
O seu pivete/mau-cheiro acaba por funcionar como a voz da sua consciência, procurando convencê-la a adoptar uma atitude mais sensata e razoável.
Stinky, 2025, 20 págs, fotocópia a preto em papel reciclado; capa em cartolina verde, 14,5x21cm. Tiragem: 20 exemplares. Porto.

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