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10 agosto 2025

Master Song


Publicação de pequeno formato escrita em inglês da autoria de Francisco Sousa Lobo e lançada pela editora letã kuš!.
No blogue LerBd Pedro Moura escreveu o seguinte sobre Master Song: "contado na primeira pessoa, e em verso, podendo falar-se de dísticos rimados, a parte textual transforma-se, como o título indica, numa canção. E como uma canção, ouvi-la várias vezes vai despertando novas ideias.
O livro apresenta, de uma forma absolutamente estática, 24 pranchas de 4 vinhetas cada, numa grelha regular. Todas as figuras e objectos são desenhados a preto, mas existem duas cores adicionais, vermelho e azul. Seria tentador fazer uma interpretação idêntica àquela que fizemos em relação ao livro de Mattia Denisse, mas aqui as cores cobrem outras funções, se bem que não haja propriamente uma linha única de simbolismo. O vestido e sapatos vermelhos da protagonista, “M” ou “Emily”, compõem-na e identificam-na enquanto personagem, e logo abrem várias possibilidades de leituras intertextuais, sobretudo com o cinema: desde os The Red Shoes dos The Archers a Don't Look Now de Nicolas Roeg, não faltarão referências que misturem as questões da inocência com a sexualidade selvagem, um hipotético poder, mesmo que “silencioso”, das mulheres, e, claro está, uma abertura a significados religiosos.
Essa dimensão temática é explorada na diegese, já que Emily trabalha como ama-seca, sobretudo com crianças de famílias judaicas, mas não esconde o desprezo que tem para com a fé deles, se bem que mistura, talvez, questões pessoais – ela é cristã - e políticas – fala da questão palestiniana. Há um momento em que Emily acompanha as crianças à sinagoga, e essas são as únicas páginas que aparecem sem cor, reduzindo tudo a um preto-e-branco maniqueísta, traduzindo, talvez, a própria visão de Emily. É ela quem vê o mundo desta maneira redutora, é ela quem o pinta.
Obcecada com o romance As 50 Sombras de Grey, a questão do desejo é tematizada e trazida à tona, na forma como Emily se arranja, entrega a diálogos tórridos online, discute repetidamente assuntos BDSM, sai à noite, e procura parceiros sexuais relativamente descartáveis. Nesta dimensão, haverá a associação intertextual àquele famoso romance, que problematiza o desejo feminino. Por um lado, é um livro que tem tido uma estrondosa recepção junto a um público esmagadoramente feminino, e que encontra possibilidades das suas fantasias reflectidas na história que apresenta. Por outro, de um ponto de vista estritamente feminista, não deixa de ser curioso que seja uma relação absolutamente desequilibrada de poder, e até mesmo abusiva, que se veja tornada no centro desse mesmo desejo. Emily, no fundo, parece estar dividida entre a possibilidade de agir sobre os seus próprios desejos – ela mostra agência nas suas acções – e o fluxo dos acontecimentos em torno dela. A cena em que passa a noite com um homem no apartamento deste, por exemplo, é apresentado a azul somente. Há, então, pistas para que entendamos as cores de uma forma algo simbólica e, assim, compreendamos as tensões presentes da pessoa de Emily.
As frases mais repetidas são “Deus é a minha testemunha” e a citação do seu “Master” - Emily defini-se como “sub”, isto é, “submissa”, nos termos específicos da cultura BDSM. A convergência dos temas está sempre presente, tornando este pequeno livrinho, aparentemente tão concentrado numa história curta, numa bateria densa de linhas cruzadas e que se reforçam mutuamente."

Master Song, [Mini kuš! #65], Fevereiro de 2018, 28 págs, impressão a cores em papel Munken Pure 120 g, 10,5x14,9cm. Edição: kuš! Letónia.

16 julho 2025

Variações

Variações foi escrito e desenhado por Rudolfo entre os meses de Outubro e Dezembro de 2018. Teve duas versões diferentes - uma em português; e outra escrita em inglês. O desenho e as composições geometrizantes são simultaneamente rigorosos e hipnotizantes.
O autor apresentou esta publicação questionando "se alguma vez te perguntaste o que acontece quando ouves DEVO a toda a hora, não procures mais."
No entanto, o tiro de partida foi dado pela leitura do livro "Laranja Mecânica" e pela inquietação provocada pelas últimas páginas, com um efeito idêntico a um murro no estômago. Depois, toma consciência que a única constante na sua vida são as milhentas variações que fez sobre o tema "Mongoloid" dos Devo!
Divagações, monólogos, ensimesmado e muito auto-consciente numa deriva incessante, rodopiando até cair.
Variações #1, Dezembro de 2018,  20 págs, impresso a preto sobre papel cinza 90 g, 14,9x21cm. Edição: Palpable Press.

05 março 2025

Sob o Olhar de Neptuno

Sob o Olhar de Neptuno é um opúsculo com quatro poemas escritos por Manuel de Freitas. Os poemas não saem em verso, são concisos e carregados de uma dolorosa vitalidade e ligeiro perfume a maresia.
Trata-se de uma bela edição artesanal, impressa com recurso a antigas técnicas de impressão. O desenho da capa é de Ângelo Ferreira de Sousa. Todos os exemplares foram compostos em tipografia de caracteres móveis e uma zincogravura reproduz a capa com apontamentos em folha de ouro.
Sob o Olhar de Neptuno, Abril de 2018, 12 págs, impressão a preto & branco; capa em zincogravura, 15,5x18,5cm., Tiragem: 250 exemplares. Edições 50kg. Porto.

05 janeiro 2025

Ecrã

Ecrã #1
Fanzine com desenhos de Bruno Borges. Traçados com pincel e tinta da china, os desenhos apresentam uma figuração muito simplificada e abstratizante, onde, por vezes, as manchas negras invadem e espalham a sombra, negando qualquer tentativa de identificação.
combinação dos diversos elementos, sejam traços, manchas, com configurações diversas, mas com as arestas praticamente ausentes, perseguem um movimento, uma reconstrução subjectiva, prevalecendo um  forte efeito gráfico e visual.
Ecrã #1, Março de 2018, 20 págs., impressão digital a preto & branco; capa em cartolina de cor, 14,8x21cm. Edição: O Gorila.

Ecrã #3
No terceiro Ecrã, mantêm-se as características presentes nos números anteriores: desenhos a tinta da china onde a linha e a mancha livre, prevalecem sobre qualquer tentativa de figuração mais objectiva.
Nestes desenhos de Bruno Borges sobressai, acima de tudo, uma notável capacidade gráfica, criando imagens simultaneamente simples e concentradoras de grande potência visual.    
Ecrã #3, Setembro de 2018, 20 págs., impressão digital a preto & branco; capa em cartolina de cor, 14,8x21cm. Edição: O Gorila.

15 novembro 2024

Durtykat

Durtykat #7
Este número do Durtykat abre com um texto de "O Céu da Boca", narrando uma viagem de carro e a observação do exterior, fixando especialmente um pormenor do capacete de um motociclista. Essa fixação, acaba por provocar um acidente e o ferimento do rapaz da mota, tudo gratuito e sem sentido.
Seguem-se alguns desenhos de Martinho Mendes. Depois, a editora Ana Ribeiro relata alguns pormenores da história de Maria Cidalina e da sua vida amorosa, através de texto, desenhos e colagens.
Noé Touraldo apresenta duas páginas situadas no WC e sala de estar, com ratos e pénis espalhados pelas divisões da casa.
Ana Ribeiro apresenta mais alguns desenhos e ilustrações, tendo como pano de fundo diversas temáticas como a música (The Smiths, Joy Division), cenas de gajas, estudantes e também hedonismo.
Durtykat #7, Outubro de 2003, 28 págs, impresso a preto & branco; capa a cores, 10,5x14,5cm.

Durtykat #9
Abrindo com uma epígrafe do escritor Paul Auster, o nono número do Durtykat apresenta diversos trabalhos de Ana Ribeiro, misturando aleatoriamente o inglês com o português, que associado ao pequeno formato (A6) adoptado, dificulta a leitura e a inteligibilidade de algum conteúdo. O reduzido tamanho do texto e uma paginação algo confusa, que obriga a virar e revirar sistematicamente as páginas são os aspectos menos conseguidos.
Pelo contrário, a excelente qualidade dos desenhos e vinhetas são os destaques mais salientes. Por vezes, o estilo gráfico e narrativo adoptado por Ana Ribeiro está próximo dos trabalhos de Isabel Carvalho, mantendo, no entanto, uma identidade própria bem vincada. Ana Ribeiro preenche as páginas com nesgas do universo feminino e sentimental, salpicado com alguma neurose e impaciência, mas também de uma aura poética sonhadora.
No que toca a colaborações, é publicada a banda desenhada "Ida a Casa do Meira" da autoria de João Losa, completamente esgrouviada e delirante. Há também desenhos e ilustrações de Victor Hugo, Nicolau Fernandes; Vasco Sequeira e textos de Daniel Pernil e de 
Pedro Ferreira.
Durtykat #9, 2006, 48 págs, fotocópia a preto sobre papel azul, 11x15,5cm.

Durtykat #10
Após um longo interregno, o Durtykat ressurge dedicado à esquizofrenia e aos delírios religiosos. Começando com um desenho de Dina Barbosa. Seguem-se trabalhos de Ricardo Alves e Sara Pinho.
Depois Ana Ribeiro, através de uma sequência de ilustrações, desfia os medos e fobias, as vozes que ecoam na cabeça, os pressentimentos e presságios, o mau-agoiro, as rezas e crendices, os anti-psicóticos e a música para tentar não ficar louca.
Segue-se uma fotografia da autoria de Francisco Janes. A terminar, Francisco Sousa Lobo escreve sobre os seus defuntos que teimam em reaparecer-lhe nos sonhos, desfiando uma série de histórias tristes de suicídio e de morte.
Durtykat #10, Março de 2016, 32
 págs, fotocópia a preto & branco, 11,2
x16,7cm.

Durtykat #11
Texto extraído do sítio Bandas Desenhadas: "no final de 2018, é publicado o Durtykat #11. Desta feita, contém uma única história, escrita e ilustrada por Ana Ribeiro. Graficamente, a obra acompanha a maturidade do trabalho que a autora tem vindo a desenvolver na área da ilustração digital, sendo influenciada pelas mais diferentes fontes, desde a técnica de détournement a Klimt. Nesta história ilustrada, a autora relembra ainda as suas influência das banda desenhada, com os balões de fala ao longo da obra, quase omnipresentes.
Quanto ao texto, utiliza as recordações do final do primeiro namoro da protagonista para explorar a estranheza do conto infantil Barba Azul, escrito por Charles Perrault no século XVII."
No editorial está escrito: "O durtykat está de volta para esta décima primeira aventura. Aparentemente, sobre um homem terrorífico que se conta às crianças e não só. Envolvi-me e viajei com ele (o durty), ou melhor, “na maionese”. Este zine é também para ele, que não pare de “viajar”."
Durtykat #11, Dezembro de 2018, 20 págs, impresso digital a cores, 11,2x16,7cm. Tiragem: 27 exemplares.

09 julho 2024

Marcha das Almas

Publicação associada ao espectáculo Marcha das Almas, inserido no programa "Caminhos da Pedra 2018". Marcha das Almas foi uma criação do compositor Rui Souza com o objetivo de explorar a voz enquanto som, palavra, canto, o corpo enquanto movimento e espaço e contou com a participação das comunidades de Ourém e de Vila Nova da Barquinha. O projeto culminou com a apresentação de dois espetáculos realizados em 20 e 21 de outubro, em cada um dos concelhos envolvidos.
Na quase meia hora de duração da Marcha das Almas, um grupo de cerca de 40 pessoas, de todas as idades, uniu-se sob os comandos de Rui Souza, para entoar canções sobre Nestum, Coca-Cola, as agruras das gerações que viveram no concelho de Ourém ou Vila Nova da Barquinha.
Com frases de Agostinho da Silva, José Mário Branco, ou do cancioneiro popular, o espectáculo percorreu as ruas das alegrias e dos tormentos, do pão, do vinho, do trabalho no campo, da fome e da abundância, da voz, do grito e do silêncio. Uma procissão em que se aclama a identidade individual, projetando uma maior identidade colectiva para perceber o exacto tamanho de cada um.
O compositor referiu que "à voz, que encara como elemento primordial e “veículo de união”, juntou o “amor” que diz estar presente neste tipo de projetos. Acrescentou a marcha “como princípio comum” das questões políticas e sociais e não esqueceu a vertente religiosa, na qual as procissões desempenham “um papel muito forte”. O resultado é uma “Marcha das Almas” em que se caminha para dar voz às ideias num momento em que “se celebra ou enterra alguma coisa”.
Marcha das Almas, 2018, 24 págs., impresso a cores, 20,3x27cm.

02 abril 2024

As Bruxas de Blergh

Confesso que tive algumas dúvidas em publicar este fanzine aqui, uma vez que o conteúdo é maioritariamente relacionado com o Brasil. A edição original lançada em 2017, também é originária desse país. No entanto, uma vez que houve uma edição "nacional" da responsabilidade da Sapata Press, acabei por decidir fazer esta publicação.
As Bruxas de Blergh é um fanzine de activismo feminista, no velho estilo corta e cola, com sentido de humor e algumas páginas bem conseguidas. Os pontos negativos são a fraca reprodução de certos grafismos e a excessiva pixelização dos textos, que em certos casos, os torna ilegíveis. Por vezes, o feminismo descamba para o lesbianismo militante e aí torna-se desinteressante.
Sara Figueiredo Costa, na revista Blimunda n.º 72, de Maio de 2018, escreveu o seguinte sobre esta publicação: "Poucos meses depois do impeachment que afastou Dilma Rousseff da presidência do Brasil, colocando Michel Temer no seu lugar – numa operação política que muitos cidadãos não hesitaram em chamar de golpe – , um colectivo de artistas, professoras e investigadoras reunia-se em Belo Horizonte. A vontade comum era a de encontrar modos de lutar contra a desigualdade de género, na política como na arte, e o momento político brasileiro parecia exigir uma atitude nesse sentido. As Bruxas de Blergh nascem, assim, em Setembro de 2017, no Bar Olympia, e dessa primeira reunião brotam muitas ideias que serão discutidas entre todas e levadas à prática num futuro próximo. Participantes activas nas manifestações contra Temer, bem como noutros movimentos sociais e culturais que vão marcando o presente no Brasil sem que os meios de comunicação social mais tradicionais vão dando notícia disso deste lado do Atlântico, as Bruxas de Blergh chegaram, ainda assim, a Portugal. A responsável foi a editora Sapata Press, projecto criado em Portugal por Cecília Silveira com o objectivo de editar trabalhos de mulheres, pessoas transsexuais e não-binárias, que em Março passado publicou o fanzine As Bruxas de Blergh, colocando o colectivo brasileiro em destaque na última edição da Raia, feira de edição independente e dando aos leitores portugueses a oportunidade de o conhecerem. E logo nas primeiras páginas, as decisões programáticas das Bruxas de Blergh afirmam-se sem manifesto nem hierarquia, numa dupla prancha que inclui a representação das suas integrantes (com cabeças de animais) e a expressão dos seus desejos: «Vamos fazer tudo o que a gente quiser»; «cada desejo»; «provocar medo, espanto, ser bem bruxa»; «o que cada uma quiser fazer, nós vamos fazer». A leitura do fanzine confirma esta vontade de total liberdade. As propostas que vão surgindo nas reuniões do colectivo incluem a colagem de imagens de vulvas pela cidade de Belo Horizonte, a apologia do prazer feminino, a discussão aberta sobre sexualidade, auto-determinação e desejo ou, naquela que talvez seja a mais plástica das intervenções do grupo, a incorporação dos gestos e das práticas do vudu na luta política, criando bonecos com o rosto de políticos ou outras personalidades que podem ser usados (inclusive, por encomenda) para exorcizar as acções destas pessoas e a sua interferência na vida quotidiana dos cidadãos."
As Bruxas de Blergh #1, Março de 2018, 40 págs., fotocópia a preto & branco, 14,9x21cm. Tiragem: 50 exemplares. Edição: Sapata Press. Lisboa.

28 março 2024

Origem & Construção

Origem & Construção foi editado a 08 de Dezembro de 2018, a propósito da exposição colectiva de publicações na Galeria Senhora Presidenta no Porto.
Uma chuva de meteoros projectados sobre os cumes das montanhas, um vulcão em erupção, jorrando rios de lava incandescente, a devastação pelo fogo. A população assustada corre em fuga, alguns sucumbem prostrados no chão. Depois da devastação, reina o caos e a violência, a luta rija pela sobrevivência. Um novo recomeço, a reconstrução e reconfiguração do mundo depois da destruição.
Neste trabalho, Gonçalo Duarte explora traço e a mancha, os contrastes, criando uma figuração bastante expressiva usando recursos escassos. Os desenhos alternam entre uma linha mais orgânica e o desenho de tendência mais geometrizante, mas sempre livres e surpreendentes.
Origem & Construção, Dezembro de 2018, 16 págs, impresso a preto & branco, 21x29,7cm.

22 agosto 2023

Pentângulo

Pentângulo é uma publicação anual resultante de uma parceria entre a Escola Ar.Co e a Associação Chili Com Carne, visando publicar autores que frequentaram o curso de Ilustração e Banda Desenhada da Ar.Co, envolvendo a participação de alunos, ex-alunos e professores.
A capa do primeiro número é da autoria de Daniel Lima, a coordenação editorial é de Jorge Nesbitt e de Marcos Farrajota e o design de Joana Pires.
Participam os seguintes autores: Amanda Baeza, Anna Bouza da Costa, Cecília Silveira, Carolina Moreira, Dileydi Florez, Francisco Sousa Lobo, Gonçalo Duarte, Igor Baptista, João Carola, João Silva, Luana Saldanha, Martina Manyà, Mathieu Fleury, Pedro Moura (como argumentista e também com um ensaio intitulado Plágio!), Rafael Santos, Rodolfo Mariano, Sara Boiça, Simão Simões, Stephane Galtier, colectivo Triciclo e Vasco Ruivo.
O tema de algumas das bandas desenhadas iniciais foi o trabalho de mulheres artistas vanguardistas do início do século XX, sobretudo de nacionalidade russa.
No jornal A Batalha, Russo apresentou a seguinte resenha sobre o primeiro Pentângulo:
"A malta que faz banda desenhada é claramente o lumpenproletariado da literatura portuguesa: não têm consciência de classe e pouco contribuem para fazer mexer a economia (uns são académicos, outros são funcionários públicos; uns recebem o certificado de artista oficial do regime, outros andam à procura de chapas de zinco para o seu projecto musical pós-industrial; uns fazem zines e alimentam-se a médias no Banco, outros banqueteiam-se alarvemente à quinta-feira no Cais do Sodré), prescindiram do seu potencial revolucionário para transformar a sociedade (preferem ir a mais uma feira de edições independentes do que picar o ponto em mais uma manif pela habitação), são indisciplinados (há dois anos que anda a ser prometido um livro de bd sobre a anarqueirada do 18 de Janeiro e nem vê-lo) e, claro, são desprezados por marxistas.
Talvez por ter sido guetificada e marginalizada pelo mercado editorial em Portugal, forçada a pedinchar por um cantinho nas livrarias e nas feiras do livro generalistas, a banda desenhada é o género literário mais vivo cá no burgo. Alguns leitores atentos poderão dizer: «Companheiro Russo, que tens a dizer sobre as ilustrações que têm saído na _______ (completar com o título de qualquer revista medíocre de poesia)? Ou aquela banda desenhada que saiu no aborrecido, porém vanguardista, Le Monde Diplomatique versão tuga? E estás a esquecer-te das participações nos jornais de grande tiragem?» Compas, tudo isso são adornos e adereços que servem para enriquecer a palavra pobre, arrastando a banda desenhada para uma condição subserviente, retirando-lhe a sua legitimidade enquanto género literário autónomo. Como se os mortos-vivos quisessem comer a carne aos vivos, arrastando-os para a sua condição cadavérica.
A edição deste primeiro Pentângulo mostra que a vitalidade de um género literário passa pela sua renovação, por dar espaço à publicação da malta nova. Mas não se trata de editar os novos só porque são novos, mas principalmente porque têm um olhar sobre o mundo que é deste tempo. Isso percebe-se logo pelas bds do João Carola sobre a desconstrução estética do supermatismo e construtivismo russos ou as do Simão Simões e da Amanda Baeza que exploram a imagética do informe. Desta antologia saiu também o desdobrável «faça você mesmo o seu ditador», do Mathieu Fleury (...) Ah, e ainda levam com um bónus em forma de bd do Francisco Sousa Lobo! Quem diria que seriam os déclassés a abanar a chafarica provinciana dos literatos?"
Pentângulo #1, Fevereiro de 2018, 118 págs, impresso a 2 cores; capa em quadricromia, 16,3x22,7cm. Edição: Ar.Co e Chili Com Carne.

10 agosto 2023

Acusmática

Este fanzine foi produzido no âmbito de um projecto na aula de Desenho Narrativo sob a orientação de Amanda Baeza. O termo acusmática pode ter origem nos discípulos do filósofo grego Pitágoras, uma vez que este ensinava seus alunos atrás de uma cortina para evitar que sua presença os distraísse do conteúdo das suas aulas. Assim, o ouvinte concentra-se exclusivamente nos sons produzidos, aumentando o poder da audição.
Também neste Acusmática escutamos como pano de fundo, o som dos rumores díspares da cidade, o barulho da bola de basquete a ser arremessada ao cesto, o alheamento proporcionado pelo vinho barato consumido entre os destroços citadinos, o esquecimento e o calor de simples palavras que dão algum conforto.
Apesar da origem académica desta publicação, João Carola alcança em Acusmática um poderoso exercício narrativo, sóbrio, profundo e de grande elegância visual. 
Acusmática, 2018, 36 págs, impresso a 2 cores; capa em cartolina de cor laranja, 11x16,3cm. Tiragem: 30 exemplares.

19 maio 2023

A Música e as Imagens e Outros Textos....

"A música e as imagens e outros textos mais ou menos íntimos sobre coisas que me são queridas: 2013 - 2017" é uma compilação editada e publicada por ocasião da ARCOlisboa 18. Os textos foram anteriormente publicados em outros fanzines como "Preto no Branco" e Cleópatra e também num catálogo de uma exposição. Tiago Baptista assume estes textos como "mutáveis, que procuram estar abertos, sempre fugiram ao fechamento...".
Sob o mote "A Música e as Imagens", Tiago Baptista apresenta um extenso ensaio sobre a música e a iconografia dos Swans de Michael Gira, sobre os discos da década de oitenta de Fausto Bordalo Dias, sobre Matana Roberts, sobre a banda inglesa Crass, e por fim sobre os eslovenos Laibach.
Outros temas e autores são objecto da atenção e análise de Tiago Baptista como o disco "Luth Classique" de Munir Bashir, o filme "Stalker" realizado em 1979 por Andrei Tarkovsky. Também o livro de banda desenhada "O Diário do meu Pai" de Jiro Taniguchi, o álbum "Alfarroba" das Pega Monstro, o disco "Black Woman" de Sonny Sharrock, o fanzine "GO" é o mote para uma conversa / entrevista com a autora Cecília Silveira. Há também um curioso texto sobre a banda Mal D'Vinhos.
Na parte final, surge o texto inserido no catálogo da exposição de pintura "Obscuro Ver", realizada entre 21 de Janeiro e 26 de Fevereiro de 2017, em Leiria.
Apesar de já conhecer alguns textos apresentados, pois estão disponíveis em outras publicações ou no site do autor, considero este fanzine extraordinário e adoro regressar a ele de tempos a tempos.
A Música e as Imagens e Outros Textos...., Maio de 2018, 84 págs., 14,9x21cm., impresso a preto & branco em papel reciclado. Edição: Façam Fanzines, Cuspam Martelos.

08 março 2023

Um #1

Um #1 compila várias bandas desenhadas da autoria de Bruno Borges. Todas as bandas desenhadas são de apenas uma página sem texto e foram publicadas anteriormente em antologias colectivas dispersas.
Utilizando uma grelha de quatro ou de seis vinhetas por página, com figuração muito simplificada, mas imbuída de sequenciação, umas vezes maquinal e outras vezes deveras caótica, reminiscentes do cinema mudo.
A combinação dos diversos elementos, sejam traços, manchas, círculos,  configurações diversas, perseguem uma determinada narratividade subjectiva, mas o resultado do efeito gráfico e visual é prevalecente nestas bandas desenhadas de Bruno Borges.   
Um #1, Setembro de 2018, 20 págs., impressão digital a preto & branco, 14,8x21cm. Edição: O Gorila.

30 dezembro 2022

Certo Senhor, Tijoleiro, de Seu Nome

O volume "Certo Senhor, Tijoleiro, de Seu Nome", da autoria de Luís Guerreiro, é baseado num conto de Hermann Hesse. A banda desenhada é ambientada numa época de tipo vitoriano, o Senhor Tijoleiro, é um homem comum, indistinguível no meio da multidão. Num dia de ócio e encontrando-se entediado e sozinho, o Sr. Tijoleiro faz planos para visitar o Museu e o Jardim Zoológico.
Numa das salas do Museu, dedicada às artes negras da Idade Média, inadvertidamente agarra numa espécie de pílula e depois de sair do Museu acaba por ingeri-la.
Na visita ao Zoo, toma consciência que consegue perceber as "vozes" dos animais e o que se segue deixa-o completamente atormentado.
O desenho desta adaptação é altamente estilizado e de grande elegância formal.
É também publicada a banda desenhada "Vidas Com Valor", narrando um dia de trabalho de um caixeiro viajante pelas terras interiores do Baixo Alentejo, visitando os seus clientes octogenários e o relacionamento de familiaridade que tem com eles. Esta BD espelha a solidão e o envelhecimento da população alentejana, mas também uma grande sensibilidade e simpatia com as personagens.
O estilo gráfico é completamente diferente, menos elaborado, do que o da BD anterior.
Certo Senhor, Tijoleiro, de Seu Nome [Colecção Toupeira #11], Maio de 2018, 16 págs, impressão a preto & branco, 18x25,5cm., Tiragem: 400 exemplares. Edição: Bedeteca de Beja.

23 dezembro 2022

Pôr as Mãos no Fogo

Abrindo com um texto escrito em inglês de Roger Welsch, descrevendo a forma como os índios americanos Omaha ensinavam as suas crianças a relacionar-se com o fogo, contrapondo-a ao modo muito mais cauteloso dos brancos ocidentais. No entanto, esta atitude demasiado protectora, ao evitar que a criança coloque a mão no fogo e se queime, impede a aprendizagem circunstancial e sensível, de como relacionar-se com o imprescindível e natural elemento fogo.
Segue-se um crescendo imparável em ebulição, começando com uma singela vela acesa, um isqueiro e cigarro ou uma primitiva fogueira. Depois, João Carola acende o rastilho e espoleta todo um arsenal pirómano, onde nada escapa às chamas vigorosas e destruidoras, terminando inevitavelmente, com o nosso mundo transformado numa incandescente pira funerária.
Pôr as Mãos no Fogo, 2018, 40 págs, impresso a preto & branco, 10,7x14,8cm.

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