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21 julho 2024

GO

A autora de origem brasileira Cecília Silveira descreve GO como uma obra que “fala sobre como seguir adiante. Facto e ficção se misturam na experiência de imigração de uma refugiada do Sudão que tem de enfrentar quotidianamente a memória traumática da travessia clandestina para chegar à Europa.”
Muito atentamente, Aline Zouvi referiu na publicação online Balburdia.net que "Em vinte páginas, Cecília conseguiu tratar um tema cuja discussão é essencial sem que a exploração do quadrinho enquanto mídia fosse prejudicada. Um momento simples como um salto à piscina é transformado, por Cecília, em um mil-folhas – cheio de camadas de sentido, de simplicidade completamente ilusória.
A representação das ondas na água, em GO, de traço livre e pinceladas bruscas, faz-me pensar nos grafismos árabes (também passa uma vibe meio Habibi, do Craig Thompson) que brincam entre o limite da imagem e do texto — texto que, no zine, se limita a representar o que já é tido como inevitável: “Are you ok? — Yes, I am” — o único diálogo em todo o zine, somado às onomatopeias da água calma na piscina e assombrosa na passagem dos refugiados. O mínimo de texto presente passa a ideia de uma comunicação mínima — trabalha-se o processo de se comunicar o incomunicável, dar forma ao trauma, assim como Cecília dá materialidade à refugiada ao desenhar o seu documento de imigração no zine. Narrativas que transformam vivências traumáticas em materialidade visual, mesmo que ficcionais, são importantíssimas para o nosso processar de tais vivências – as nossas e as dos outros.
Ao colocar lado a lado as imagens de um possível mergulho na piscina e o atirar-se à incerteza de uma travessia, Cecília constrói uma relação visual interessante entre as noções de cheio e vazio (de gente e de água); serenidade e desespero; entre outros extremismos que caem por terra quando se trata de vivenciar e sobreviver ao trauma."
GO foi inicialmente lançado em 2016 pela editora Dor de Cotovelo, sendo impresso em risografia azul e lombada cosida. O fanzine é acompanhado por uma embalagem dourada, que parece um vulgar papel de embrulho de prenda, mas num olhar mais atento, reparamos que esse dourado recorda-nos os cobertores térmicos que costumamos ver a cobrir os refugiados que sobrevivem à travessia do mar. 
GO, 2017 (2.ª edição), 20 págs., risografia azul, 19,3x27,8cm. Tiragem: 50 exemplares. Edição: Sapata Press. Lisboa.

22 agosto 2023

Pentângulo

Pentângulo é uma publicação anual resultante de uma parceria entre a Escola Ar.Co e a Associação Chili Com Carne, visando publicar autores que frequentaram o curso de Ilustração e Banda Desenhada da Ar.Co, envolvendo a participação de alunos, ex-alunos e professores.
A capa do primeiro número é da autoria de Daniel Lima, a coordenação editorial é de Jorge Nesbitt e de Marcos Farrajota e o design de Joana Pires.
Participam os seguintes autores: Amanda Baeza, Anna Bouza da Costa, Cecília Silveira, Carolina Moreira, Dileydi Florez, Francisco Sousa Lobo, Gonçalo Duarte, Igor Baptista, João Carola, João Silva, Luana Saldanha, Martina Manyà, Mathieu Fleury, Pedro Moura (como argumentista e também com um ensaio intitulado Plágio!), Rafael Santos, Rodolfo Mariano, Sara Boiça, Simão Simões, Stephane Galtier, colectivo Triciclo e Vasco Ruivo.
O tema de algumas das bandas desenhadas iniciais foi o trabalho de mulheres artistas vanguardistas do início do século XX, sobretudo de nacionalidade russa.
No jornal A Batalha, Russo apresentou a seguinte resenha sobre o primeiro Pentângulo:
"A malta que faz banda desenhada é claramente o lumpenproletariado da literatura portuguesa: não têm consciência de classe e pouco contribuem para fazer mexer a economia (uns são académicos, outros são funcionários públicos; uns recebem o certificado de artista oficial do regime, outros andam à procura de chapas de zinco para o seu projecto musical pós-industrial; uns fazem zines e alimentam-se a médias no Banco, outros banqueteiam-se alarvemente à quinta-feira no Cais do Sodré), prescindiram do seu potencial revolucionário para transformar a sociedade (preferem ir a mais uma feira de edições independentes do que picar o ponto em mais uma manif pela habitação), são indisciplinados (há dois anos que anda a ser prometido um livro de bd sobre a anarqueirada do 18 de Janeiro e nem vê-lo) e, claro, são desprezados por marxistas.
Talvez por ter sido guetificada e marginalizada pelo mercado editorial em Portugal, forçada a pedinchar por um cantinho nas livrarias e nas feiras do livro generalistas, a banda desenhada é o género literário mais vivo cá no burgo. Alguns leitores atentos poderão dizer: «Companheiro Russo, que tens a dizer sobre as ilustrações que têm saído na _______ (completar com o título de qualquer revista medíocre de poesia)? Ou aquela banda desenhada que saiu no aborrecido, porém vanguardista, Le Monde Diplomatique versão tuga? E estás a esquecer-te das participações nos jornais de grande tiragem?» Compas, tudo isso são adornos e adereços que servem para enriquecer a palavra pobre, arrastando a banda desenhada para uma condição subserviente, retirando-lhe a sua legitimidade enquanto género literário autónomo. Como se os mortos-vivos quisessem comer a carne aos vivos, arrastando-os para a sua condição cadavérica.
A edição deste primeiro Pentângulo mostra que a vitalidade de um género literário passa pela sua renovação, por dar espaço à publicação da malta nova. Mas não se trata de editar os novos só porque são novos, mas principalmente porque têm um olhar sobre o mundo que é deste tempo. Isso percebe-se logo pelas bds do João Carola sobre a desconstrução estética do supermatismo e construtivismo russos ou as do Simão Simões e da Amanda Baeza que exploram a imagética do informe. Desta antologia saiu também o desdobrável «faça você mesmo o seu ditador», do Mathieu Fleury (...) Ah, e ainda levam com um bónus em forma de bd do Francisco Sousa Lobo! Quem diria que seriam os déclassés a abanar a chafarica provinciana dos literatos?"
Pentângulo #1, Fevereiro de 2018, 118 págs, impresso a 2 cores; capa em quadricromia, 16,3x22,7cm. Edição: Ar.Co e Chili Com Carne.

05 novembro 2022

Satan

 
Brevíssima banda desenhada de quatro páginas de Cecília Silveira, autora de nacionalidade brasileira, a residir em Portugal. Em cima de uma ponte sobre um rio, uma mulher ensaia uma estranha dança vestida com uma camisola com a palavra Satan e o número 13 estampados nas costas.
A atracção que ela exerce sobre quem a observa, provocará estranhos e inesperados acontecimentos.
Satan, 2016, 8 págs., impressão a laser, 15x21cm, Edição: Dor de Cotovelo, Lisboa.

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