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26 março 2026

2125

Num futuro ano 2125, a autora imagina uma espécie de distopia invertida, onde um agente completamente improvável, percebido inicialmente como o invasor, acaba depois por funcionar como principal agente de mudança benigna.
Partindo de um presente caracterizado pela exaustão emocional, isolamento, e desconexão provocados pelo ambiente urbano frenético e desumanizado, induzindo um ambiente de extermínio do invasor, do estrangeiro, visto como uma praga, mas que em vez de sucumbir, consegue adaptar-se melhor às circunstâncias e prosperar contra todas as probabilidades.
Matilde Basto utiliza um dispositivo relativamente convencional de quatro vinhetas por página, mas enquadra-as por molduras com diferentes formas e motivos figurativos, conferindo-lhes bastante organicidade.
À semelhança do anterior Casal de Santa Luzia a autora volta a compor uma fábula onde animais comuns (dantes os gatos, agora as baratas) coabitam com os humanos em espaços urbanos onde se intui um ameaçador mal-estar, uma sensação de desajustamento, de não pertencer à cidade.
Inicialmente, as baratas são representadas como espectros luminosos, em ambientes pontilhados por formas estrelares (idênticas à forma do símbolo do Gemini, talvez a simbolizar uma inteligência superior), e num processo gradual de alteridade, conforme os insectos vão sendo melhor conhecidos e integrados no quotidiano da cidade, vão adquirindo formas mais definidas e simpáticas.
2125 foi realizado para a exposição virtual da 'StoryTellers' no Parque Silva Porto, em Lisboa, que decorreu entre Setembro e Dezembro de 2025.
2125, Dezembro de 2025, 24 págs., impresso a preto & branco; capa em cartolina cinzenta, 17x22cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #44].

22 novembro 2025

Casal de Santa Luzia

Casal de Santa Luzia foi desenvolvido por Matilde Basto no âmbito de um estágio da London College of Communication realizado entre Março e Maio 2022 na Chili Com Carne.
A história assume contornos misteriosos nas margens da grande cidade, onde os baldios são colonizados por bandos de gatos vadios. Os sinais. Uma ameaça paira no ar, sente-se que algo está para acontecer. Instala-se uma rotina claustrofóbica de fim dos tempos. Um mundo pós-humano, zombificado, onde os gatos são a espécie sobrevivente, assumindo-se como os novos senhores da zona à superfície.
O desenho também é algo surpreendente, oscilando entre o negativo arranhado dos gatos e dos gradeamentos e o traço baço e esborratado da tecnologia vigilante e controladora.
A solidão, os espaços abandonados, os gradeamentos que confinam e delimitam uma cidade negócio, privatizada e artificial. Os sinais. O puzzle que se vai compondo lenta e inexoravelmente.
Sara Figueiredo Costa escreveu na revista Blimunda que "o baldio dos gatos é um universo em si, um oráculo, uma “boca cósmica”, como se lê numa das vinhetas. É apenas um baldio ao lado da casa de quem narra, mas vai-se agigantando como algo mais. É na leitura dos sinais que essa concretização ganha o corpo possível, com a mudança a revelar-se na cidade e nas vidas de quem a habita. E é nesse momento que Casal de Santa Luzia se revela como eco da pólis, onde facilmente reconhecemos uma Lisboa presa nas malhas da especulação imobiliária, esse fenómeno que as secções de economia dos jornais tratam como algo intangível, explicando subidas e descidas de preços, mas que é, na verdade, uma espada real pendendo sobre as cabeças de quem aqui mora."
Casal de Santa Luzia, Maio de 2022, 52 págs., risografia a uma cor; capa a duas cores, 14,5x20cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #34].

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