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01 fevereiro 2026

História da Fome

Excertos do texto da autoria de Sara Figueiredo Costa publicado na revista Blimunda n.º 123, de dezembro de 2022: "Esta História da Fome percorre momentos fundamentais na cronologia da nossa relação com os alimentos, como a sedentarização e a agricultura, o domínio e o uso do fogo e a industrialização, mas mais do que historiográfica, a sua abordagem é ensaística, algo que já acontecia em trabalhos anteriores de Feitor, e relaciona a ingestão de alimentos, necessidade fisiológica, com a vontade de acumulação que foi definindo as nossas sociedades. À Blimunda, o autor explicou o percurso que este livro foi fazendo antes de existir materialmente: «Sempre me intrigou a maneira como usamos a palavra, que tanto nos serve para falar de carência fisiológica como se presta a nomear todo o tipo de apetites e inclinações, muitas delas estruturantes e obsessivas. Assim que a ideia me surgiu, surgiu de imediato o título, por predisposição para tentar fazer desta narrativa uma análise que trespassasse o tempo. Contudo, a ideia sempre foi focar-me naquilo a que estes apetites nos conduziram, à situação actual, como fiz noutros textos. A ideia de História, aqui, é a isso que se presta: olhar com horror para trás para compreender a forma em que nos encontramos, a degradação a que os nossos apetites conduzem. É óbvia a colagem entre a ideia de querer comer, apesar de não se sentir qualquer carência, com a ideia de possuir, mesmo que tal não sirva para satisfazer nenhuma necessidade concreta.»
Pelas páginas vão desfilando figuras pantagruélicas em devoração opípara, carantonhas que por vezes remetem para máscaras do Nordeste transmontano (e que já surgiram noutros trabalhos do autor) ou para certas iluminuras satíricas medievais, esqueletos numa dança da morte feita ao ritmo da ingestão de acepipes vários. Há símbolos – maçónicos, religiosos, mitológicos, políticos – e remissões, textuais e visuais, para as classes dominantes ao longo dos tempos, da Igreja ao grande capital. História da Fome é uma reflexão que cruza política, cultura e sociedade, e é também um libelo com ecos novecentistas, lembrando folhetos saídos de imprensas mais ou menos clandestinas, um J’Accuse, de Émile Zola cruzando-se com as gravuras de William Blake (também ele impressor), os rostos e as imagens densamente povoadas de Brueghel com a sátira desbragada de certos folhetos de cordel, toda uma herança por onde passam textos, momentos históricos, máquinas de imprimir movidas a braços e alguma raiva.
Texto e imagem dialogam, mas têm um potencial de existência autónoma que não é comum em livros ilustrados. O texto sobreviveria como breve ensaio sobre a relação dos alimentos com o consumo, da fome com a acumulação, da voracidade com a manutenção de privilégios. Por outro lado, a força visual e simbólica das páginas ilustradas é, por si só, um espaço autónomo, capaz de gritar as suas angústias, dúvidas e inquietações sem necessidade de outras imagens ou de texto (e também por isso a exposição, que prescinde do texto e junta às imagens do livro algumas outras, é uma outra criação, não dependente deste objecto impresso). Ainda assim, como nos contou o autor, foi das palavras que nasceu esta História da Fome: «Desta vez o texto surgiu primeiro, apesar de em modo embrionário (refiz o texto muitas vezes, à medida que o processo decorria). A primeira versão foi escrita de uma penada. Depois limei tudo, lentamente, embora não tenha conseguido dar-lhe uma forma coerente e organizada. Reconheço alguma tendência para a repetição e muita desordem. Os desenhos, como quase sempre, resultaram de aturadas pesquisas. Comecei na Idade Média, com as representações da gula enquanto pecado capital, e nessa fase o Brueghel velho serviu-me de guia. Muitos elementos que surgem no livro, como os caracóis, vieram daí. Depois percorri outras referências, nomeadamente gravura satírica dos séculos XVIII e XIX, com Doré e o seu Pantagruel à cabeça, claro. Quem conhecer estas fontes vai reconhecê-las nos desenhos. Não há qualquer relação de complementaridade ou afinidade entre os desenhos e os textos, salvo raras exceções, como a representação do Génesis ou a ilustração para a imposição dos cereais na dieta humana. Mas, mesmo nessas, se calhar apenas eu vejo as conexões.»
São dois os capítulos que compõem este livro. O primeiro, intitulado “Hiperfagia”, dedica-se a esta análise histórica que nos traz dos excedentes agrícolas ao consumo transformado em desejo, divindade, mecanismo de controlo social. Por esse capítulo passam o Génesis bíblico e a Loba do Capitólio, as práticas religiosas mais antigas e a instituição da religião como mais um mecanismo de poder, a morte e o grande capital. No segundo, “Filogafia”, o foco está na reflexão sobre como o apetite pelo consumo e os seus diversos graus, definidos em função de uma escala social, se relaciona com o modo como vivemos em sociedade e com as escolhas políticas que fazemos (ou não fazemos, por vezes). Sobre isso, diz José Feitor: «Parece-me que este desejo de acumular, mas também de esbanjar e desperdiçar, é típico das sociedades massificadas, em que a maioria silenciosa se presta a ser governada por uma elite, desde que mantenha uma ligeira ilusão de que os pode emular. Foi esta ideia que eu levei para o livro. Somos todos consumidores com tendência para a engorda, porque assumimos colectivamente esta fantasia, a de querer imitar os que tudo têm e podem. E esses não passam de uma versão de nós próprios, apenas com outros meios para se sentar à mesa e encher o bandulho.»
Entre o excesso e o amor ao excesso, andamos há séculos a alimentar deglutições épicas. Está por saber se podia ter sido de outra maneira, mas como se descreve em História da Fome, basta passar algum tempo numa dessas «lanchonetes babilónicas» que se instalam no piso superior de algum centro comercial, e onde a corrida desenfreada ao ketchup e à possibilidade de o levar para casa é um dos desportos praticados, para perceber que talvez tudo isto faça parte do nosso devir colectivo. Entre ketchup em pacotinhos gratuitos e descartáveis e telemóveis que têm de ser sempre da última geração, é possível que se tenha esgotado o espaço e o tempo para outros modos de viver. Curiosamente, tudo indica que esse espaço e esse tempo estão a esgotar-se também para este modo, pelo que resta almejar que o futuro não seja parco em gente que nos conte o que vê em textos, imagens e o resto, e que reflicta sobre que se vai construindo para chamarmos de mundo."
História da Fome, Dezembro de 2022, 48 págs, capa e encarte impressos em serigrafia; miolo impresso em offset a duas cores, 21x29,7cm. Tiragem: 250 exemplares. Edição: Imprensa Canalha (IC #028).

28 dezembro 2025

Guia de Alimentação Vegetariana

Num tempo onde praticamente não existia informação sobre alimentação vegetariana, e muito menos lojas especializadas ou restaurantes vegetarianos, este Guia de Alimentação Vegetariana constituiu uma excelente fonte de informação e um extenso manancial de receitas para preparar refeições vegetarianas.
O Guia não identifica o(s) seu(s) autor(es), mas certamente terá sido produzido no seio do movimento straight-edge.
As primeiras páginas são dedicadas a explanar a opção pela vegetarianismo, em termos biológicos, orgânicos, éticos e ambientais. 
Seguem-se diversas considerações sobre receitas com cereais, leguminosas, algas, plantas aromáticas e condimentares. Há também indicações sobre doces, sopas, chás e outros líquidos.
O Guia inclui também considerações particulares sobre a alimentação vegetariana durante a gravidez, bem como sobre a sua adequação às crianças. As últimas páginas contém uma breve bibliografia sobre o tema da alimentação vegetariana.
A esta distância temporal, verifica-se que a esmagadora maioria dos problemas identificados no Guia e que justificavam a opção pelo vegetarianismo, mantêm-se e até se agravaram significativamente, pelo que a adopção de uma alimentação mais consciente e sustentável, é uma questão de primordial importância.
Guia de Alimentação Vegetariana, Outubro de 1997, 80 págs, fotocópia a preto & branco; capa em cartolina colorida, 14,9x21cm.

27 abril 2025

Caldo

A primeira toma do Caldo é sobre "Marmitas" e aqui a autora explica tudo aquilo que sabe sobre o tema, que será também o cerne de um workshop realizado numa tarde de Setembro de 2024. Desengane-se quem achar que o Caldo é um repositório de receitas gastronómicas (também as há, como extra), assumindo-se antes como "uma pequena colecção de premissas de empoderamento culinário capazes de serem empregues na vida real, contemplando as limitações de quem as tem, e todos os níveis."
Ao longo do Caldo, Joana Barrios vai desfiando várias histórias pessoais e como a comida e a hotelaria fizeram parte da sua vida desde sempre e como essa relação foi evoluindo ao longo do tempo.
As questões relacionadas com a alimentação humana e com os recipientes utilizados para guardar / transportar comida são tópicos explorados para discorrer sobre as alterações no mundo do trabalho, nos ritmos do quotidiano e como as marmitas  ressurgem em força, mostrando-nos como é possível retirar o melhor partido das mesmas - "A marmita é um manifesto numa caixa, que já por si é um objecto cénico de poder imenso".
Fanzine muito original e instrutivo de Joana Barrios, com design gráfico e impressão da Desisto.  
Caldo, 2024, 20 págs, impresso a risografia em duas cores, 12,3x20,7cm. Tiragem: 150 exemplares. Lisboa.

23 janeiro 2025

Como Manter um Panda Gordo no Natal

Bem sei que é extemporâneo, mas agora que o Natal já passou e as comidas e doçuras típicas da época já estão bem digeridas, será menos fastidioso recordar este guia repleto de receitas sobre Como Manter um Panda Gordo no Natal!
As receitas foram escolhidas, revistas e apresentadas por Joana Valente com simplicidade e sentido de humor, tudo polvilhado muito açúcar e canela.
Temos a descrição sobre todos os procedimentos e ingredientes necessários para confecionar deliciosas refeições com muita doçura tradicional à mistura. São publicadas as receitas de bola de carne, pão de canela do Toni, camarões à la planche, patê de atum com whisky, roupa velha, rabanadas de leite, bilharacos, formigos à pobre, aletria de cortar e sonhos.
O fanzine é composto por uma página dedicada à receita e na página oposta surgem desenhos dos ingredientes e sobrepostos em papel vegetal, constam os respetivos os nomes.
Para vincar o carácter artesanal da publicação, as páginas foram costuradas com linha preta.
Como Manter um Panda Gordo no Natal, Dezembro de 2011, 26 págs, impressão a preto & branco; capa em papel colorido, 14,9x21cm. Tiragem: 20 exemplares. Edição: O Panda Gordo [OPG.010]. Porto.

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