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28 março 2026

The Winner Takes It All

Da tertúlia do “Grande Prémio de Desenho”, programada com o irónico título “A Táctica do Quadrado! Estilo & Substância”, anota-se alguns pontos que interessa revelar. Apesar de nem todos os artistas participantes terem estado presentes, e, se não houver engano, contando apenas com duas presenças exteriores ao concurso, focaram-se três principais pontos que importa reunir: O primeiro ponto refere a importância da formação ao nível da disciplina do desenho administrado no curso da Faculdade de Belas Artes do Porto e a sua influência nas opções artísticas mais emergentes, sendo que a maioria dos convocados a concurso são alunos e ex-alunos desta escola, tirando alguns casos provenientes de Lisboa como André Lemos, Bruno Borges, e Mauro Cerqueira de Guimarães.
O segundo ponto prende-se com a acessibilidade do desenho, pois sendo uma prática paralela à escrita exige no mínimo uma folha e um lápis para concretizar um raciocínio, e assim justifica-se como um meio sem grande exigência de custos materiais no desempenho da sua eficácia.
Num terceiro ponto, de um modo mais fugaz, tentou-se discutir o virtuosismo que persegue esta prática. Se, por um lado, o virtuosismo ligado ao domínio técnico é compreensível se não for um fim, por outro há uma necessidade de desvirtuação. Os mais emblemáticos desenhos que se inserem nesta discussão são, pelo primeiro lado, dos autores Nuno Sousa, Carlos Pinheiro, Isabel Carvalho, Marco Mendes, Arlindo Silva, Miguel Carneiro, Francisco Roldão, Bruno Santos Silva e Joana da Conceição. Todos apresentam formalmente o desenho virtuoso, aquilo que na prática do desenho se destaca mais superficialmente, mas subvertido e moderado pelos conteúdos. O trabalho de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa tem sido muito forte na ironização do talento e da qualidade de mestria, enquanto o da artista Isabel Carvalho faz uso para apresentar uma certa deformação catita-visceral. O trabalho de Marco Mendes e Arlindo Silva que se prende na representação de uma realidade íntima, na maior parte dos exemplos, notoriamente imprópria e desviada, mas apresentada sem pudor. E ainda o trabalho de Miguel Carneiro, o vencedor desta primeira edição, que se constrói quase sempre como projecto de desenho, e muito próximo de um processo de investigação, reúne referências desde as mais triviais às mais eruditas. Neste caso uma homenagem ao grupo de Chicago “Hairy Who” consegue actualizar o ênfase crítico, absurdo e ambíguo do desenho no contexto do prémio. “Eu faço o que quero com o meu cabelo”, slogan mediático de um gel, é premeditadamente escrito pelos caracóis de um cabelo feminino.
No segundo lado os protagonistas mais evidentes serão Mauro Cerqueira, Carla Cruz, André Sousa, Pedro Nora, João Marrucho, Mónica Faria e Carla Filipe. Saliento ainda duas situações evidentemente politizadas, e muito bem conseguidas, no desenho apresentado por Inês Azevedo e Tatiana Santos. O desenho em quase todos os casos citados, e na generalidade dos participantes, é uma ferramenta de acção conceptual que carrega um ímpeto performativo, quer dizer de acção, permitindo verificar uma emergência que forçosamente reúne um certo número de artistas.
Devo apenas deixar como nota que a votação foi um círculo hermético, ou seja, os únicos que tiveram direito a voto foram os participantes, e o prémio foi a própria colecção constituída a propósito do concurso — “The Winner Takes it All”. O mecanismo de reconhecimento de um vencedor deste circuito que se quis fechado, e provavelmente metáfora, consciente e talvez irónica, dessa emergência do desenho. Que, sendo provocatório, pode correr o perigo de querer representar e acentuar uma certa geração de artistas do Porto que, apesar do trabalho persistente, não se pode fechar numa única forma operativa.
('Da Emergência do Desenho no Porto' de Aida Castro, publicado a 12-05-2007 em Arte Capital).
The Winner Takes It All, Maio de 2007, 44 págs, impresso a preto & branco; capa em papel colorido, 19x27cm. Edição: Senhorio / Mula. Porto.

04 outubro 2025

Às Cegas

Às Cegas é uma publicação colectiva que contém cinco textos curtos de João Sebastian. Cada texto é acompanhado por um desenho diferente ilustrado por Alexandra Ramires, José Feitor, Ana Torrie e Paulo Vinhas.
Como é apanágio das edições da Oficina do Cego, há um cuidado excepcional com a manufactura desta publicação, apresentando uma capa impressa em serigrafia e tipografia de caractéres móveis sobre cartolina verde escura. O miolo foi impresso em serigrafia, a duas cores (vermelho e azul escuro). A encadernação é manual, com caderno cosido a fio branco. Todos os exemplares são numerados e carimbados com o selo próprio da Oficina do Cego.
Os texto de João Sebastian foram manuscritos por Luísa Bigode, e como extra é oferecido um ex-libris da autoria de Inês Cóias em linogravura sobre papel manufacturado pelo Papeleiro Doido.
Às Cegas, Abril de 2014, 16 págs, impressão do miolo em serigrafia; capa em tipografia, 17x17cm. Tiragem: 53 exemplares. Edição: Oficina do Cego.

01 março 2025

Busto

No efervescente meio artístico independente do inicio do século na cidade do Porto, surgiram vários grupos como o Senhorio, que lançou um conjunto de fanzines, entre os quais este Busto.
Apresentando na capa a epígrafe "Der klügste gibt nach" (o mais sábio cede), colige desenhos, ilustrações e banda desenhada muito variados, reflectindo a diversidade estilística dos respetivos autores.
Participam os artistas do colectivo Senhorio e alguns autores convidados: André Alves, Inês Azevedo, Carlos Pinheiro, Tatiana Santos, Miguel Carneiro, Mónica Faria (compêndio a cores), zE, Marco Mendes, Marta Bernardes, Ana Torrie e Nuno Sousa.
Destacam-se os estranhos e soturnos desenhos de Carlos Pinheiro, a divagação prazenteira pelos lavabos ferroviários do Monsieur Pignon por Miguel Carneiro, os instantâneos domésticos e confessionais de Marco Mendes e a caótica composição gráfica de Nuno Sousa. 
Busto, Julho de 2005, 40 págs, impresso a preto & branco; capa em serigrafia, 14,5x21cm. Tiragem: 300 exemplares. Edição: Senhorio. Porto.

07 abril 2024

AmoZtr

Fanzine concebido para a 5.ª edição de aMOSTr - Mostra de Edições Independentes de Vila do Conde, realizada entre os dias 05 e 08 de Outubro de 2023. O rés-do-chão e o primeiro piso do Teatro Municipal de Vila do Conde estavam  repletos com bancas de publicações e edições discográficas. Havia também a exposição 'Aquém da Graça' com trabalhos de Esgar Acelerado, autor e editor, apresentando diversos exemplares do seu fanzine Cru, e de outros trabalhos da sua autoria (Superfuzz, cartazes, capas de discos); o outro destaque era a celebração dos dez anos de existência de Flanzine. A Mostra estava bastante agradável; o fanzine ficou aquém das expectativas.
Apesar do fanzine assumir como tema a "estupidez", não se vislumbra de que forma esse conceito enformou a maior parte dos trabalhos publicados. Por outro lado, há  várias páginas com informações redundantes ou que poderiam ser incluídas noutro espaço (o índice e a ficha técnica, por exemplo). A gramagem e o papel de tipo luxuoso, também não favoreceram o resultado final.
São apresentados desenhos, textos, colagens, grafismos, gravura, montagens fotográficas de diversos autores: Mide Plácido, Pedro Sim, Miguel da Mota, Miguel Correia, João Pedro Azul, Nunes Zerel-Ieci, Orlando Gilberto-Castro, Ana Torrie, Sturrefsit Adjukaatrix, Catarina Real, Isa Bruno, Miky Mao e Wathever. A capa foi desenhada por Esgar Acelerado.
AmoZtr, Outubro de 2023, 32 págs, impresso a cores, 15,5x22,5cm. Tiragem: 200 exemplares. Vila do Conde.

01 fevereiro 2024

Mister

Mister foi editado pelo colectivo Senhorio, que durante 5 anos promoveu diversas iniciativas artísticas e culturais no Porto. Um pouco de história para enquadrar: "Os projectos mais megalómanos ficaram pelas intenções. Alguns deles foram motivo de reuniões, conspirações, textos e desenhos, muita conversa fora de horas. Enquanto isso, era preciso pilim para obras e materiais, rendas que começaram a acumular, ganhar a vida. Conseguimos boas receitas a vender cenas e merdas na Vandoma, fizemos festas para ajudar a pagar os custos do espaço, fanzines e desenhos para venda, concertos. No meio disso tudo, os projectos que mais queríamos realizar ficaram em águas de bacalhau, talvez por perda de pica, por falta de acordo entre os intervenientes, por falta de verbas, por não fazerem falta. Não tínhamos nenhum programa nem éramos metódicos. Um palpite: gostamos de ocupar o espaço das coisas por cumprir.
Ao longo de 5 anos muita gente passou pelo Senhorio, para trabalhar no espaço, para participar nas reuniões e nos projectos que nunca seriam realizados, para cantar e fazer canções, para beber uns copos e ver o que os outros andavam a fazer. Tornou-se um espaço de transição entre a escola e o mundo do (des)trabalho, um espaço de diálogo e conflito, muito amor e pouco sentido programático."
Em Mister, são apresentados diversos desenhos, textos, logotipos, montagens fotográficas, banda desenhada, definições retiradas do dicionário, etc., reflectindo sobre a problemática da prática artística.  Colaboram nesta publicação os seguintes autores: António Preto, Dinis Santos, Carlos Pinheiro, Tatiana Santos, Ana Torrie, Marta Bernardes, Nuno de Sousa, Inês Azevedo e André Alves. No meio da publicação, é inserido solto um desenho original de tamanho A4 da autoria de Carla Cruz. 
Mister, 2006, 40 págs, impresso a preto & branco; capa com segunda cor, 14,5x21cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Senhorio. Porto.

26 dezembro 2023

Álbum de Família

Houve um tempo em que tirar uma fotografia era algo especial. As fotografias eram impressas em papel e eram guardadas em álbuns ou colocadas em passe-partout na sala de visitas. Tiravam-se fotografias em certas cerimónias como casamentos, baptizados, comunhões, formaturas, etc.
Ocasiões celebratórias como reuniões familiares, aniversários, os primeiros passos dos cachopos, festas de Páscoa e Natal, também eram merecedoras de serem fotografadas.
Para mais tarde recordar ou para fazer inveja aos amigos, as férias na praia ou as viagens de turismo também eram amplamente fotografadas e documentadas.
Hoje em dia, a fotografia está completamente banalizada e omnipresente e ninguém mantém um álbum de fotografias como antigamente, pois não se imprimem as fotografias, ficando guardadas digitalmente nas memórias dos discos rígidos ou no telemóvel.
Os velhos álbuns e as fotografias que guardavam são agora uma memória longínqua e antiquada, que já não se mostra às visitas, acabando frequentemente no caixote do lixo ou nas feiras de velharias.
São precisamente esse tipo de imagens familiares que Ana Torrie resgata ao fundo do baú do esquecimento em Álbum de Família, recompondo os retratos com o seu desenho de traço minucioso e implacável, capturando a essência da imagem fotográfica, sem nunca a embelezar.
Em Álbum de Família, os desenhos são apresentados na página do lado direito, mantendo a página oposta em branco. Os desenhos incidem unicamente nas figuras humanas sobre fundo branco, tendo sido eliminada qualquer referência ao lugar, projectando toda a força da imagem nas pessoas e grupos retratados.
Álbum de Família, 2005, 44 págs, impresso a preto & branco, 13,8x13,8cm. Edição: Senhorio. Porto.

07 março 2023

A Maldição do Monte da Mina

A Maldição do Monte da Mina, narra a vida dos alunos da Turma de 82 a 86 que frequentou a Escola do Monte da Mina. O texto de Nuno Sousa e Ana Torrie, ficciona a vida de cada um dos alunos, que culmina sempre com um desfecho trágico.
Na página esquerda é apresentado um pequeno texto, identificando o aluno e a sua biografia trágica; na página direita surge um desenho de Ana Torrie. Os desenhos decalcam as poses solenes e formais que se adoptavam antigamente sempre que se tiravam fotografias. 
Fico com a sensação que os autores partiram de um conjunto de fotografias, do género das que se encontram à venda na Feira da Vandoma, e depois imaginam uma narrativa trágica para cada uma das imagens.
A Maldição do Monte da Mina, 2007, 48 págs, impresso a preto & branco; capa a cores, 13,5x13,5cm. Edição: Senhorio. Porto.

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