22 setembro 2026

Dossier Top Secret

Dossier Top Secret #30
Nas primeiras páginas escreve-se sobre a práctica do desenho e sobre a nova edição do boletim Clubedelho. Logo depois, é apresentada a bd 'Ave de Guerra' de Teo, acompanhando o voo de uma estranha ave que pode representar o último voo de um kamikaze.
A outra banda desenhada publicada neste número é a continuação de 'Krum' da autoria de Victor Borges e R. Alves, uma história de cariz medieval.
Dossier Top Secret #30, Outubro de 1989, 14 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Almada.

Dossier Top Secret #31
A parte inicial é bastante inusitada, dando à estampa um texto auto-apologético do Clubedelho e logo a seguir, dois extractos de notícias a referirem a criação do Clube Português de Banda Desenhada, repescadas em revistas publicadas 10 anos antes.
Depois vem o melhor: - a 1.ª parte de 'Seattle' uma belíssima elegia aos índios americanos, na iminência de serem obrigados a 'venderem' as suas terras aos colonos brancos. Diniz Conefrey compõe num traço insinuante uma espécie de oração americana.
Segue-se novo tomo de 'Krum' de Victor Borges e R. Alves, desvendando-se a origem da maldição que persegue os personagens.
A última página é dedicada à divulgação de novos fanzines, com destaque para o oitavo número de Banda e o debutante Co'mídia.
Dossier Top Secret #31, Novembro de 1989, 16 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Almada.

Dossier Top Secret #34
O destaque deste número do Dossier Top Secret é a conexão espanhola, materializada na publicação da bd "Mas Vale Tarde..." com texto de J. Machota e desenho de M. Andreia, sobre um grupo de soldados entrincheirados, que tiram à sorte qual deles vai sair do buraco para "calar" uma metralhadora.
Também há notícias sobre novas edições do fanzine valenciano "ComicGuia - Caderno de la Historieta" e do fanzine brasileiro "LSD - Luz, Sombra & Dimensão".
A fechar uma banda desenhada curta "Companhia BC" da responsabilidade do editor Victor Borges.
Dossier Top Secret #34, Fevereiro de 1990, 16 págs, fotocópia a preto & branco; capa em papel colorido, 14,9x21cm. Almada. 

Dossier Top Secret #46
O Dossier Top Secret é uma publicação mensal de divulgação jovem / BD, com direcção de Victor Borges. Neste número, publica duas bandas desenhadas e alguns desenhos do portfólio de Pedro Dias. A primeira bd, intitulada "O Ás de Ouros" com texto de Carlos Neto e desenho de Pedro Dias, começa com um galo a cantar fora de horas, seguida de uma tentativa de assassinato que dá para o torto e uma sessão de tortura para obter informações.
A segunda bd, "Máscaras ao Luar - Conto de Carnaval" da autoria de Vítor Andrade, foi originalmente publicada no fanzine Ritmo. Enquanto percorrem as ruas da cidade, uma personagem mascarada vai divagando filosoficamente sobre a vida, sobre a amizade e o amor, enquanto um pierrot escuta pensativamente, permanecendo solitário no cais enquanto a outra personagem se afasta numa barca em direcção ao horizonte longínquo.
Dossier Top Secret #46, Fevereiro de 1991, 16 págs, fotocópia a preto & branco; capa em papel colorido, 14,9x21cm. Almada.

Dossier Top Secret #51
Número dedicado a José Carlos Fernandes, apresentando uma entrevista ao autor, ainda a dar os primeiros passos na banda desenhada. "Singin' In The Rain (As the Ozone Layer Grows Thinner)" é a história publicada, em jeito de catástrofe ambiental e efeitos psiquiátricos ainda por apurar.
Dossier Top Secret #51, Maio de 1992, 16 págs, fotocópia a preto & branco; capa em papel reciclado, 14,9x21cm. Tiragem: 250 exemplares. Edição: J. Machado-Dias / Pedra Pomes. Almada.

20 setembro 2026

Expectativas

Mini-zine que utilizando uma folha A4 com um corte central, que depois de dobrada de forma engenhosa, forma uma sequência de oito páginas. Tudo começou com algumas notas no telemóvel da autora, que foram evoluindo e em Junho de 2024 transformaram-se numa exposição realizada em Leiria. No mês seguinte, foi apresentado como fanzine no concurso Rock n'Cave em Paredes de Coura.
As Expectativas de Claudia Pena são um emaranhado interior que a autora descreve como "as dúvidas sobre quem somos quando nos olhamos ao espelho. Aquilo que por vezes os outros colocam em nós e nos prende. Aquela voz que está sempre a chatear e não nos deixa avançar. Aquilo que por vezes nos deixa ansiosos e não nos deixa dormir.
Não são como as borboletas no estômago, são como um novelo de lã, onde nos perdemos e por vezes tentamos encontrar."
Expectativas, Dezembro de 2024, 8 págs, fotocópia a cores, 7,5x10,5cm (aberto 29,7x21cm).

19 setembro 2026

Diário PT Metal

O metal é um dos últimos redutos da edição de fanzines em papel. Diário PT Metal é uma newsletter publicada mensalmente dedicada ao metal nacional. Neste nono número, o destaque de capa incide no renascimento dos insulares Morbid Death e no lançamento do seu novo disco, que representa um regresso às origens, mas com maior requinte.
Seguem-se pequenas notícias sobre a actividade das bandas. Na rúbrica denominada "Números Redondos", referência para o álbum 'Macabre Requiems' dos lisboetas Grog que comemora 30 anos após o seu lançamento em 1996 pela Skyfall Records.
As páginas seguintes são preenchidas com inúmeras resenhas a novos lançamentos discográficos do espectro sonoro mais pesado nacional.
Diário PT Metal #9, Maio de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco, 14,9x21cm.

15 setembro 2026

Emboscada

Mini fanzine de Sofia Quintas Belém com pequenos poemas ou frases curtas - "o romance conforta a tragédia", ilustrado com alguns desenhos e imagens fotográficas.
A apresentação é bastante arejada e espaçada, captando instantes do quotidiano, impressões pessoais sem sentimentalismos exacerbados ou revelações demasiado confessionais.
Emboscada, Fevereiro de 2022, 16 págs., impresso a preto sobre papel colorido; capa com linogravura, 7,5x10,5cm. Edição: Editora Passatempo. Lisboa.

13 setembro 2026

Heron Rules

Os trabalhos de Massimiliano Bomba apresentados em Heron Rules, são desenhos que se espraiam de forma livre e divertida, explorando formas orgânicas sobre diversos tipos de papel: folhas pautadas, de duas linhas, quadriculadas, milimétricas, lisas ou coloridas.
No interior, surge um caderno de páginas amarelas quadriculadas, com figuras esboçadas de forma rápida, com expressões mais sérias e inquietantes, formando uma certa continuidade e uma vontade de contar uma história, embora seja mais pressentida do que explícita.
Há também desenhos coloridos que podem ser composições abstractas ou então figurações quase infantis, exercitando um estilo lúdico e descomprometido.
Heron Rules, Fevereiro de 2010, 52 págs, impresso a laser sobre papel branco 100 g.; capa em serigrafia sobre papel preto 200 g., 15,3x21,4cm. Tiragem: 75 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-0015].

10 setembro 2026

Boletim do CPBD

Boletim do CPBD #1
O primeiro número do Boletim do 
Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), lamenta-se dos atrasos verificados e da escassa colaboração dos sócios, ficando o Boletim ao encargo de poucos.
O conteúdo apresenta um panorama da banda desenhada em Portugal, listando as editoras activas e as respectivas publicações: - Agência Portuguesa de Revistas, Edições Bertrand, Portugal Press. Desta última editora, é destacado O Grilo.
Referência para o festival italiano Lucca Dodici e o encontro dos membros do CPBD com Camillo Conti.
Segue-se uma página com o título 'Cartoons e Banda Desenhada em Jornais' elencando as tiras e os suplementos de bd publicados nos jornais nacionais.
Há também uma secção dedicada às trocas, com listas dos títulos procurados pelos sócios do CPBD.
Para finalizar, um artigo versando sobre a banda desenhada e os intelectuais europeus.  
Boletim do CPBD #1, Março de 1977 [2.ª edição: Janeiro de 1987], 12 págs, stencil a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #2
As primeiras páginas são dedicadas a detalhar a banda desenhada publicada em Portugal e no Brasil. Nota também para um pequeno artigo assinado por António Dias de Deus sobre a banda desenhada portuguesa nos anos vinte e trinta.
Nessa sequência, é apresentado um artigo sobre a banda desenhada erótica em Portugal após o 25 de Abril de 1974, compilando uma grande variedade de títulos em publicação.
A banda desenhada "Copra" com argumento e desenho de Juan Espallardo, anima as páginas seguintes e corta com a monotonia das listas infindáveis.
Este número termina com a banda desenhada humorística "Desculpa-nos, o que Pensas da Banda Desenhada?" da autoria de António Dias.
Boletim do CPBD #2, Junho de 1977 
[2.ª edição: Novembro de 1987], 24 págs, stencil a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #3
Continuação do artigo sobre a banda desenhada publicada em Portugal e no Brasil. 'Psicoterapia de Trazer por casa' é o nome do ensaio assinado por A. Dias de Deus. Por seu lado, Ernesto Assis contribui com o artigo 'Subsídio para uma Bibliografia Sobre Banda Desenhada'.
Continua também o relato sobre a participação da delegação lusa que esteve presente no 12.º certame Lucca Dodici.
Nova aventura de 'Copra', desta vez o primeiro episódio, já anteriormente publicado no fanzine com o mesmo nome. 'Copra – A Flor da Memória' é uma banda desenhada de seis páginas da autoria de Nelson Dias e Augusto Mota, criada posteriormente a “Wania – Escala em Orongo”
Boletim do CPBD #3, Setembro de 1977 [2.ª edição: Janeiro de 1988], 22 págs, stencil a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #48
Boletim do CPBD #48, Janeiro / Fevereiro de 1984, 20 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #54
O Boletim do CPBD teve a coordenação de Carlos Gonçalves e a capa  desenhada por Ajota (António Jorge Quadros). A primeira banda desenhada "Eu Sou Linda", com arte de Ric e história por Mike, é uma correria desvairada de dois jovens que percorrem as praias e os locais de diversão nocturna, sempre em busca de adrenalina e de engates ocasionais, com muita porrada pelo meio.
Depois M. Jorge apresenta "Tarzu", que vai parar à prisão por estar a incomodar os vizinhos com a sua gritaria, mas a sua mãe não vai deixá-lo a apodrecer na cadeia.
O mesmo autor apresenta ainda outra prancha, que é encaixada por baixo da última página da bd anterior.
Segue-se a adaptação em bd por M. J. Galante do poema "Trovas para serem vendidas na travessa de S. Domingos" escrito por António Gedeão.
As últimas quatro páginas contêm um índice elaborado por Fernando Burguete, com a descrição dos hérois e das histórias publicadas no "Tintin" desde o 1.º até ao 15.º ano de publicação. 

Boletim do CPBD #54, Janeiro / Fevereiro de 1985, 20 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #82
Este número do Boletim do CPBD continua a apresentar a adaptação em banda desenhada de "O Malhadinhas" de Aquilino Ribeiro. A adaptação realizada pelo bracarense José Pedro Costa é excelente e consegue capturar toda a ambiência e idiossincrasias dos personagens criados por Aquilino Ribeiro.
O desenho e o desenvolvimento da narrativa denotam um excelente domínio da linguagem da banda desenhada. A história seria concluída no número seguinte do Boletim.
Esta adaptação de um texto clássico da literatura portuguesa merecia um reedição cuidada, em conjunto com outros trabalhos da autoria de José Pedro Costa.
Boletim do CPBD #82, Novembro / Dezembro de 1989, 16 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #86
O Boletim aparece renovado e revigorado com a coordenação editorial do muito jovem João Fazenda (então com 13 anos), que assina a capa e uma bd "As Diabruras do Picas" passada numa sala de aulas durante um exame.
O arranjo gráfico do Boletim também foi remodelado, resultando numa publicação mais jovem, atractiva e moderna. 
Manuel Brum publica "Os 11 Mandamentos" parodiando o filme de Cecil B. de Mille. O destaque desta edição é uma entrevista a Jorge Mateus conduzida por Fazenda e por Marcos Farrajota, abordando o trabalho, as influências e o percurso do autor, entremeando com diversas vinhetas e extratos de histórias desenhadas por Jorge Mateus.
A banda desenhada "O Tiro" de Marcos Farrajota envolve policias e ladrões e uma espécie de duelo com frases assassinas e pistolas encravadas.
A contracapa apresenta um desenho do personagem "Raul, O Sinistro" de Ricardo Blanco. 
Boletim do CPBD #86, Fevereiro de 1992, 20 págs, fotocópia a preto & branco; capa com segunda cor, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #89
A coordenação deste número ficou a cargo de Pedro Gil, que se propunha tentar tirar o Boletim do CPBD da letargia em que se encontrava. Começa com uma breve, mas bastante interessante, entrevista a Rui Gamito, que também contribui com a bd 'Armindo Way', um dia de raiva e de vingança de um marido encornado. 
Estrompa publica 'Licença para a Morte' uma escapada fora de horas antes de embarcar para o Vietname, que acaba na cadeira eléctrica.
'Sub-Urbano' é um conjunto de sete tiras divertidas de Absinto, contando com duas personagens: - um homem que gostaria de ser um rato; e um rato com inteligência de homem.
'Transfigurações de um Herói' é um texto de Paulo Duarte sobre a criação e evolução dos super-heróis ingleses sob a sombra tutelar de Alan Moore e Neil Gaiman.
Segue-se uma curta biografia de Ruka (Rui Rebello da Silva) e uma excelente bd nocturna, misturando com felinos, álcool e violência.
Daniel Martins contribui com a prancha 'Toxicidades' e J. Coelho com 'Bronx ou Lx?'. Há ainda diversas ilustrações de Tozé Lopes, Nuno Marques e J. Coelho.
Boletim do CPBD #89, Outubro de 1995, 28 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Tiragem: 400 exemplares. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

Boletim do CPBD #90
Numa altura que o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) comemora 20 anos de existência, a edição do Boletim fica a cargo de Bruno Campos (Arkham, Aardvark, Bizarro) e as palavras que tece no editorial ao CPBD não são as mais elogiosas.
A primeira prancha "Uscometa" é de Pitchu. Depois "Telefones Eróticos com Sarampo" , um poema de Alice P. ilustrado por João Fazenda.
Geraldes Lino faz uma cobertura à 23.ª edição do Festival de Angoulême. 
"O X marca o lugar do tesouro" e mais duas tiras avulsas, compõem mais uma página da autoria de Pitchu.
Nas páginas centrais, uma mulher que espera, um telefone que não toca em "Kitten" de Dan Silva.
Segue-se um conjunto de notas e informações escritas por Bruno Campos sobre fanzines, editoras e festivais de bd.
"Sobre as Espetes de Marte" é mais uma jornada cósmica da autoria de Nuno Nisa, mas desta vez o humor sobrepõe-se, transformando-se numa deriva espacial cómica.
"Os Erros dos Deuses", é um comentário crítico de Sá-Chaves ao álbum lançado pela editora ASA "A Voz dos Deuses".
Uma nova bd mais extensa de Dan Silva intitulada "Mulher-Na-Peça", envolvendo um roubo de uma peça mística que gera uma onda de dor e vingança.
A finalizar, uma nova incursão de Pitchu no mundo das praxes académicas e dos programas de TV para o público mais jovem. 
Boletim do CPBD #90, Setembro de 1996, 28 págs, fotocópia a preto & branco, 21x29,7cm. Edição: Clube Português de Banda Desenhada. Lisboa.

08 setembro 2026

Rain in Tears

Encontram-se diversas resenhas sobre este trabalho de Mao. Transcrevo duas das mais interessantes. A primeira é da autoria de Justin Giampaoli no blogue Thirteen Minutes. Segue em tradução livre do inglês: "Rain in Tears começa com uma premissa interessante: "E se as ferramentas de opressão de 'Blade Runner' fossem usadas, em vez disso, para a libertação?" A arte de Mao tem um toque de mangá, com vinhetas repletas de detalhes pixelizados e planos em perspectiva que conferem uma sensação de velocidade e movimento à narrativa, adequando-se aos avanços biotecnológicos progressivos que a história explora. Os rostos das figuras humanas são retratados de maneira muito interessante, parcialmente ocultos por sombras ou modificações deliberadas — como semblantes tecno-orgânicos que lembram máscaras avançadas ao estilo Kabuki. Gostei da inclusão da "Medusa", uma espécie de programa de computador senciente ou IA que monitora as experiências com as criaturas marinhas. A obra transmite a sensação de uma ficção especulativa de vanguarda, à medida que a Medusa toma decisões — sejam actos deliberados ou omissões casuais — que colocam os humanos no fogo cruzado de acusações. Tudo isso desenrola-se como uma fábula de advertência que contrapõe e emoldura a questão tecnológica inicial da bd com um dilema mais natural para o desfecho: "A Natureza é uma mãe benevolente que cuida de nós ou um horror lovecraftiano que se devora a si mesmo?" Rain in Tears é uma obra fascinante que opera no registo do horror tecnológico, com tons cáusticos de amarelo e rosa na arte que alertam para as questões perigosas subjacentes."
A segunda resenha é de Pedro Moura, publicada no blogue LerBD: "Os interesses e campo de experiência de Hugo Almeida, a.k.a. “Mao”, continuam a incidir numa densa e intrincada rede de cruzamento das consequências das possibilidades que a técnica tem trazido de forma cada vez mais dramática nas determinações biológicas. Isto é, não tanto simplesmente a intervenção externa sobre o biológico da parte da técnica via a soteriologia (através de ferramentas, fármacos, cirurgia, prostética), mas algo que reconfigura a própria ontologia da vida.
À primeira vista (que na verdade nunca o é, pois o autor não está interessado em ilusões simples), o livro parece ter uma intriga de fc. Só que a travessia pelas páginas coloca-nos num mundo laboratorial e de ciências “duras” que conseguem manipular o ADN como os poetas DADA brincaram com o alfabeto. Estão aqui presentes os ecos de campos contemporâneos como os da engenharia epigenética, a edição CRISPR, o uso do sistema de IA AlphaFold, e outras nano- e macro-coisas de que nem sei a missa a metade. Mao “disfarça” tudo isto com uma pequena intriga tirada de um thriller de ficção científica, como se tivéssemos chegado a meio de um filme. Um laboratório que parece querer contornar certas regras deixa que um polvo, geneticamente alterado, escape para o mundo natural e isso poderá vir a ter consequências desastrosas. Fanfiction de uma “lab leak theory”, portanto, as coisas são relativamente simples e céleres em termos de acções. Todavia, a força de Mao está em todas as camadas que actuam, a um só tempo, como textuais e metatextuais – as pop-up Windows, o acesso a emails e mensagens que temos, os chats. (mais)
Pois o central nem será tanto essa mesma “intriga central”, mas o drama humano em torno das condições de trabalho: financiamento, crises de comunicação, liderança das equipas, interesses cruzados entre empresas, governos, medicina e outros campos, etc. Em uma pequena dezena de páginas, Mao cria um torvelinho com todos esses ingredientes. E a própria linguagem que emprega – note-se nos nomes das embarcações (“Phorcys”), dos programas (“Medusa”), até mesmo algumas palavras empregues pelas personagens (“Kraken”, “lovecraftian”), e perceberão a, perdoem-me, “salada de moluscos”.
Uma outra dimensão, paradoxal, é a exploração daquele género conhecido por tentacle porn (aconselho vivamente a NÃO pesquisarem o termo), isto é, a de cenas titilantes envolvendo alguma criatura provida desses membros flexíveis. O mais famoso exemplo histórico (sem ser “o primeiro”) é de Hokusai, mas a sua explosão nas mentes ocorreu em 1987, com a versão anime de Urotsukidōji. Digo “paradoxal” em relação ao livro de Mao pois nunca surgem cenas explícitas dessa sexualidade, mas ela é claramente exposta, e ficará reservada à nossa imaginação. Tal qual o título parece implicar, e é ainda mais exposto numa espécie de introdução, há uma clara referência ao discurso do replicante Roy Batty, em que se fala de “ter visto coisas que vocês [humanos] não acreditariam”. Portanto, de certa forma, ao jogar com essa ausência, Mao demonstra como haverá sempre uma outra dimensão, além-do-humano, inalcançável, de possibilidades visíveis.
Se até à recente, o conceito de Foucault da biopolítica operava através de instrumentos como estatísticas, políticas de saúde pública, sistemas de educação e redes de vigilância, estamos na linha de passagem (ou já passámos? Campo difícil de destrinçar entre a conspiração e o conhecimento científico) para um nível interior à vida (bio): a nível dos sistemas imunitários, células e genes, microbiomas e processos moleculares…
No fundo, é a invasão do design na evolução, em que as “condições de possibilidade” se libertam dos imperativos e determinações biológicas, o “natural” pode ser engineered, o vivo programável a “nosso” bel-prazer.
E com essas potencialidades, o livro termina com uma cena possível, um apocalipse diluvial. Que fazer? O que o protagonista faz? Cantar como Nero num karaoke bar, uma canção dos Pulp."
Rain in Tears, Setembro de 2025, 28 págs, offset a cores; capa cartonada, 10,5x14,8cm. Edição: kuš! Letónia [Mini kuš! #136].

03 setembro 2026

Anim'arte

Anim'arte #1

Anim'arte pretende dar a conhecer o trabalho realizado pelos animadores culturais e também divulgar o vasto património cultural e humano da região Dão-Lafões.
Referência para a polémica em torno da publicação de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" escrito por José Saramago.
"Religião de Sábado à Noite" é um artigo sobre a vida nocturna, os destaques musicais do ano anterior, concluindo com uma avaliação bastante severa acerca da produção musical nacional, destacando apenas o surgimento dos Resistência.
Entrevista muito pertinente a José Arimateia dinamizador da danceteria "The Day After" em Viseu.
No espaço associativo divulga-se a actividade e história do Centro Cultural de Currelos.
As oito páginas centrais, em jeito de encarte impresso em papel colorido, são dedicadas ao Caderno Técnico "Teatro", com entrevistas, um glossário sobre o tema e a divulgação do teatro de fantoches.
Segue-se uma reportagem com memórias, lendas e segredos sobre a tradicional Aldeia da Pena. O percurso prossegue depois em direcção à cidade de Tondela.
Na rúbrica dedicada ao cinema e video, Joaquim Andrade explora os psicodramas do género trash que podem ser encomendados nos videoclubes.
As últimas páginas são dedicadas à divulgação de textos literários e também a referências biográficas sobre Aquilino Ribeiro.

Anim'arte #1, Março de 1992, 32 págs, offset a preto & branco, 21x29,7cm. Tiragem: 1000 exemplares. Edição: GICAV. Viseu.

Anim'arte #2
Assumindo-se como uma revista de animação sócio-cultural, a Anim'arte abre espaço para diversas temáticas de cariz cultural e de identidade regional.
A indefinição do estatuto profissional do animador cultural ocupa o editorial. A crónica de Pedro Martins incide sobre a série televisiva "Os Simpsons". Alagoa (dos Lucretia Divina), escreve sobre as tribos urbanas, destacando as tribos associadas a sonoridades mais pesadas e metaleiras.
Na entrevista ao artista Pedro Albuquerque, sobressai uma panorâmica sobre a sua carreira e a vivência artística na cidade de Viseu.
Segue-se uma reportagem sobre as "Cavalhadas de Vildemoinhos", uma tradição secular com mais de 370 anos de existência.
Como encarte, impresso em papel azul, surge o "Caderno Técnico de Banda Desenhada" com muita informação específica e também diversos artigos de opinião, referências ao Salão de BD de Viseu organizado pelo GICAV, que ia na quarta edição, bem como aos autores homenageados: Fernando Bento (1991), Artur Correia (1992) e os autores revelação: os irmãos Carlos Santos e Fernando Santos.
Os primórdios do cinema, os filmes mudos projectados ao ar livre no meio da praça central, espalhando sonhos e magia. Noutro registo completamente diferente, Joaquim Alexandre escreve sobre "Os Anti-Sociais", um filme trash holandês alugado num videoclube.
Mais alguns textos sobre associativismo juvenil, animação cultural e regionalismos preenchem as restantes páginas desta publicação viseense.
Anim'arte #2, Junho de 1992, 32 págs, offset a preto & branco, 21x29,7cm. Tiragem: 1000 exemplares. Edição: GICAV. Viseu.

Anim'arte #5
Ao comemorar um ano de existència, Anim'arte apresenta um balanço das actividades desenvolvidas e da programação cultural existente na região de Viseu.
No mês de Janeiro destaco a exibição do filme 'Nuvem' de Ana Luísa Guimarães, uma obra marcante do início dos anos noventa, que nunca teve a merecida edição videográfica.
Noticia-se também os prémios Anim'arte 92, homenageando instituiçõess e pessoas que se destacaram ao longo do ano.
O caderno técnico, inserido como encarte, é dedicado à serigrafia, com uma detalhada descrição do processo de impressão.
O malogrado escultor José  Moreira, falecido aos 38 anos, é objecto de singela homenagem nas páginas desta edição.
A banda viseense Dead Corporation é entrevistada após a realização de um ensaio.
No espaço associativo, publica-se uma entrevista a Beatriz Ferreira, nova presidente do GICAV. A última página é preenchida com uma crónica sobre os dias da rádio na guerra.
Anim'arte #5, Março de 1993, 32 págs, offset a preto & branco, 21x29,7cm. Tiragem: 1000 exemplares. Edição: GICAV. Viseu.

01 setembro 2026

Joga Forte

Joga Forte #11
Excelente fanzine dedicado ao mundo dos jogos, sejam jogos de tabuleiro, videojogos a emular jogos de tabuleiro, jogos de guerra, de dados, cartas, etc.
Esta edição contou com a capa desenhada por Sara Pinto e apresenta um excelente arranjo gráfico, muita informação pormenorizada sobre novos jogos, destacando os jogos e os eventos realizados em Portugal.
Sem dúvida, que Joga Forte é um dos melhores fanzines temáticos e funcionais que se publicam actualmente.
Joga Forte #11, Dezembro / Janeiro de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco; capa a cores, 21x29,7cm. Edição: Artmatriz. Viana do Castelo.

Joga Forte #12
A comemorar dois anos de publicação, a ideia consolida-se e começa a ganhar ambição. Na capa, um trabalho de Hugo Maciel, inspirado no filme 'The Thing' de John Carpenter, que deu também origem a um jogo de tabuleiro.
Na rúbrica 'Anatomia do Jogo' Pedro Santos Silva conta-nos como foi criado e desenvolvido o jogo '12 Monks'.
As páginas centrais apresentam a quarta entrada explorando o nicho dos wargames de tabuleiro.
Os membros da comunidade são também convidados a apresentar parte da sua colecção de jogos, comentando os seus favoritos, fomentando o gosto pelos jogos principalmente na sua vertente lúdica e de convívio.
Joga Forte #12, Fevereiro / Março de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco; capa a cores, 21x29,7cm. Edição: Artmatriz. Viana do Castelo.

Joga Forte #15
Capa com ilustrações de Patrício Brito criadas para o jogo 'Romaria'. De resto, esta edição de Verão explora os novos jogos de tabuleiro, livros sobre jogos, jogos RPG (role-playing), cobertura do 'Diversão Offline', o maior evento de jogos de tabuleiro da América Latina, realizado no Brasil desde 2015.
Outro dos destaques é a exploração detalhada do jogo 'Romaria', onde cada jogador assume o papel de um organizador responsável pelo seu próprio cortejo da Romaria da Senhora D'Agonia, com os respectivos Músicos, Mordomas, Cabeçudos, Gigantones e a Ribeira.
Joga Forte #15, Agosto / Setembro de 2026, 12 págs, fotocópia a preto & branco; capa a cores, 21x29,7cm. Edição: Artmatriz. Viana do Castelo.

30 agosto 2026

Infante Dom Henrique

Reedição de duas bandas desenhadas históricas dedicadas ao Infante D. Henrique. A primeira é da autoria de José Ruy, datada de 1960 (edição de autor) e depois reimpressa em 'O Templário' (1979). Esta narrativa é baseada na obra "D. Henrique, O Navegador" de Elaine Sanceau.
A segunda bd é assinada por Baptista Mendes, publicada inicialmente no Cavaleiro Andante (1960) e reeditada posteriormente no álbum da Editorial Futura "Antologia da BD Portuguesa" n.º 4 (1983).
Infante Dom Henrique, 2016, 32 págs, offset a cores, 21x29,7cm. Tiragem: 1000 exemplares. Edição: GICAV. Viseu.

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