Mostrar mensagens com a etiqueta ZMB. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ZMB. Mostrar todas as mensagens

26 agosto 2024

Almas Riscadas no Muro

Almas Riscadas no Muro é o mais recente lançamento de trabalhos de ZMB pela editora Opuntia Books. No meio da publicação, está incluído um encarte com 16 páginas, intitulado "Imaginações Verídicas Sobre a Guerra" que reúne um conjunto de obras anteriormente publicadas na Estúpida Magazine #9, em Outubro de 2022.
No texto de apresentação, ZMB confessa que, além da sua família sanguínea e dos seus amigos, precisa também de uma família-mito, que vai adoptando dos livros que lê, da música que venera e nas crianças que gera, ou seja, nas telas que pinta.
Em Almas Riscadas no Muro vemos uma sucessão de telas pintadas com cores violentas, não matizadas, com toda a força dos fauvistas. Um mundo de sentimentos, desejos e emoções, expostos de forma selvagem e primitiva, descrente dos padrões académicos da pintura.
É também notória a influência dos pós-impressionistas, de Van Gogh, Gauguin, Paul Cézanne, Henri Matisse, Pablo Picasso, visível nas composições povoadas com retratos, figuras, animais, espaços domésticos e naturais.
As reproduções das telas/papéis apresentadas nesta publicação, permitem-nos um vislumbre da força vital da pintura de ZMB, mas o impacto dos trabalhos em tamanho real deverá ser gigantesco.
A pintura de ZMB apresenta-se plenamente imbuída da fisicalidade da tinta-matéria derramada directamente da bisnaga para a tela (ou papel), no seu estado de pureza de cor primitiva. O naturalismo e a tridimensionalidade são descartados em prol das sensações, dos gestos e dos impulsos interiores.
As referências literárias e musicais surgem espalhadas pelas telas, desde as Edições Cassiber lá de casa, mas também um excerto de o Alma-Grande de Miguel Torga, uma figura masculina (o artista?) a ler um livro de Henri Michaux, os Coil transviados via "I Paint You as a Dead Soul", os Ornatos Violeta a receberem atenção semelhante com "A Tua Imagem Pintada em Todos os Muros" e também o "Earth Inferno 1904", inspirado em Austin Osman Spare (Coil novamente).
O equilíbrio entre a produção automática e a produção mágica, está longe de ser mantido (Artaud), mas ZMB assume plenamente que carrega "a culpa do mágico, a culpa do pintor, a razão porque ele se sente um bandido mental, um outsider mesmo aos outsiders, um bruto que brande o pincel como uma varinha mágica ou um pau de bandeira".  
Almas Riscadas no Muro, Novembro de 2023, 52 págs, impressão a cores, 14,5x20,3cm. Tiragem: 30 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-045].

05 setembro 2023

O Senhor Fumo

À semelhança de The Ghost and the Fairy, fanzine de ZMB anteriormente publicado pela Opuntia Books, também este inclui um texto introdutório escrito pelo autor para enquadrar os desenhos.
O Senhor Fumo é apresentado com uma sinceridade desarmante, sem qualquer indulgência para o seu ser e agir. O Senhor Fumo é um animal cheio de dor própria, marcado a ferro incandescente com a raiva toda do amor. 
Os devaneios, as provocações para espantar as consciências mais sossegadas, as provações, a solidão, o desespero, os excessos, a depressão, a queda livre e bater em cheio no fundo. a Arte como possibilidade de redenção, ou pelo menos, de tentar seguir em frente...  
O texto termina com um esclarecedor: "O Senhor Fumo não é o pintor ZMB, é apenas mais um alter-ego zeligiano, uma construção, alguém que vos apresenta uma versão distorcida do seu mundo", isto, para evitar qualquer vislumbre autobiográfico.
Os desenhos sucedem-se numa sequência implacável, com o texto inicial a ressoar incessantemente. Os desenhos de ZMB são executados com materiais comuns, como esferográficas de várias cores, grafite ou lápis de cor, e as composições podem ser escrupulosamente minuciosas e detalhadas ou então, apenas esboçadas em traços rápidos e incisivos. O leão, os cafés e os bares atascados, os vampiros de Rémon Chambi, a tábua de engomar da São, o meio-homem com a estrela do caos como cabeça (Coil) e o corpo halber mensch (Einstürzende Neubauten) acoplados (Edições Cassiber) e atónitos sobre a cama ou sentados expectantes no meio da praça, perplexos e desconformes com a desolação dos espaços inquietantes, a solidão reincidente, escorrendo das paredes e dos muros esconsos... Mergulha-se sem pé, todo e inteiro... Agarra-se mais um livro que urge ler, mais um disco a escutar, como se a vida dependesse disso. As baforadas incessantes e os pensamentos dissipando-se em anéis de fumo turvos. Uma porta que se entreabre para o inaudito e feérico mundo do Senhor Fumo.
O Senhor Fumo, Dezembro de 2022, 52 págs, impressão a cores, 14,5x21cm. Tiragem: 30 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-035].

23 maio 2023

Verruma

Verruma #02
Verruma é uma ferramenta manual para perfurar a madeira e é também o nome adoptado por André Lemos para uma nova publicação da Opuntia Books. Neste segundo número, além de Lemos, colaboram Bruno Dias, L.L., ZMB, Lauri Mäkimurto, S.L. e Nigel McMagan.
Com uma sucessão hipnótica de desenhos, fotografias, pinturas, montagens e "found images" de diversas proveniências como filmes de baixo orçamento, cinema de terror gore, ficção científica, naves espaciais a sobrevoar a Grande Muralha da China, criaturas monstruosas pouco assustadoras, talhadas de carne vermelha e cabeças de peixe com olhos vidrados e muitas outras estranhas e exóticas. 
A ausência de qualquer tipo de texto ou contextualização, reforça o mistério e maravilhamento, numa amálgama primordial, plena de visceralidade. As técnicas gráficas e de impressão utilizadas, as montagens realizadas com diversa iconografia e temática moderna e antiga, projectam a Verruma para um tempo indeterminado, o passado sobreposto ao futuro.
André Lemos e restantes colaboradores, entregam-nos um imaginário que é simultaneamente familiar e contemporâneo, mas também ancestral e primitivo, provocando um choque de estranheza e inquietação.
Uma verruma que perfura e instala no cérebro uma espécie de epifania brutalista.
Depois de todo o labor artesanal e assombro que vislumbro aqui, causa-me perplexidade porque só foram impressos 15 exemplares?!

Verruma #02, Abril de 2022, 48 págs, impressão a cores, 14,5x21cm. Tiragem: 15 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-028].

Verruma #03

A Verruma #03 conta com a participação de praticamente todos os colaboradores da edição anterior: André Lemos, L.L., Nigel McMagan, S.L. e ZMB., e agora Reijo Kärkkäinen, o que lhe confere uma certa  continuidade, esboçando também alguns traços identificativos.
Folhear a Verruma causa sempre uma certa estranheza, pois nada assume uma existência puramente positiva. Tudo o que vemos, é o resultado de um conjunto de ausências, que antecedem e contextualizam, uma prefiguração que lhe proporciona uma determinada inteligibilidade, uma existência espectral e onírica. Sucedem-se imagens misteriosas e inquietantes, enraizadas na iconografia da ciência e da ficção científica do século XX, uma plataforma para a deriva cósmica rumo ao desconhecido.
A Verruma enquadra-se, mas não se aprisiona, no conceito de hantologia de Jacques Derrida, e da respetiva operacionalização no domínio político / cultural desenvolvida por Mark Fisher.
A Verruma é a antítese do bombardeamento pós-moderno de citações, pois assume como identidade o que é inquietante, sem procurar desvelar aquilo que é oculto ou obscuro. Verruma é uma conspiração do semiesquecido, do mal recordado e do efabulado. A Verruma está ancorada no imaginário comum, mas deriva para o modernismo popular, para o naif, o brutalismo, o gore, o anti-academismo e o novo tradicionalismo.
A Verruma proporciona uma sensação confortável, mas artificial de déjà vu, algo que não conseguimos situar num tempo e espaço específicos, uma certa familiaridade, mas simulada, uma promessa não cumprida de regresso ao analógico através do digital.
A Verruma não se limita a regurgitar a nostalgia, desencadeia algo mais profundo e obscuro, reminiscências de algo que estava pausado no subconsciente colectivo.
Voltando a Derrida, e à sua paráfrase de Hamlet - "o tempo está desconjuntado" aplica-se que nem uma luva à Verruma: - esqueçam a cronologia linear: passado-presente-futuro, pois aqui as linhas temporais entrecruzam-se aleatoriamente. Os estratos sucedem-se e sobrepõem-se, deixando as suturas visíveis, os artefactos expostos invocam um passado difuso, mas também um futuro que não chegou a acontecer.
Paira sobre a Verruma uma névoa fina, baça, um velamento, que lhe desvanece qualquer possibilidade de brilho, sobrepondo-se uma camada de patine fantasmagórica.
O estranhamento, o sonho (ou o pesadelo?), a dimensão onírica cruzada com memórias difusas, uma evanescência fugidia, que nos remete para um tempo passado, um idílio que verdadeiramente nunca existiu.
Verruma #03, Novembro de 2022, 52 págs, impressão a cores, 14,5x20,7cm. Tiragem: 15 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-034].

06 março 2023

The Ghost and the Fairy

"The Ghost and the Fairy" reúne um conjunto de 37 desenhos de ZMB (Rui Lourenço). Em jeito de apresentação, está inserida uma folha amarela com uma "Carta aos galeristas e coleccionadores de Arte Bruta ou Outsider" assinada pelo autor. Poderia pensar-se que a Carta seria um apelo à atenção, revelando uma necessidade de validação exterior por parte dos galeristas e coleccionadores, como forma de obter alguma legitimação e reconhecimento artístico e comercial. No entanto, a Carta constitui uma impressiva tentativa de autobiografia, mesmo que por vezes pareça ficcionada, sentimos como profundamente sincera e tocante, aproximando-nos do autor e da verdade do seu trabalho. 
No que respeita aos desenhos apresentados, são realizados utilizando grafite sobre uma superfície que aparenta ser papel vegetal, exceptuando o trabalho publicado nas páginas centrais "Caracol na Cidade", elaborado com esferográfica de várias cores sobre papel de cor verde.
ZMB é um artista outsider multifacetado, que nesta publicação, explora um universo povoado de personagens que nos olham de forma penetrante e expectante de algo que está para acontecer, os rostos com expressões retorcidas lembram os trabalhos de Francis Bacon. Os reflexos nos espelhos, as mulheres desnudas com o peito à mostra, situadas em perspectivas declinantes, e as sereias que já perderam a esperança de regressar ao mar.
A esfinge que insiste em recordar-nos que chegou o tempo de relançar novamente a potência da arma dos sonhos.
The Ghost and the Fairy, Agosto de 2021, 52 págs, impressão preto & branco; capa a cores, 14,5x21cm. Tiragem: 30 exemplares. Edição: Opuntia Books [OB-0021].

  © Ourblogtemplates.com