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06 agosto 2026

88

Esta é uma publicação significativa, pois assinalou os cinco anos de existência do fanzine Mesinha de Cabeceira (MdC) e inaugurou as edições da Associação Chili Com Carne. É significativa na medida em que marcou uma viragem no estilo editorial e gráfico do MdC: - é um volume monográfico, com uma história conclusiva, impresso em offset e com um arranjo gráfico com design bastante vincado.
Ao passo que os anteriores números do MdC eram fotocopiados, esta edição surge impressa em gráfica, com capa a duas cores e miolo em papel reciclado.
O formato adoptado ao estilo do comic book e o grafismo moderno de Pedro Brito, transformam completamente a imagem gráfica anterior do fanzine, conferindo-lhe um ar moderno e com design inspirado nas tendências emanadas pelas revistas Ray Gun e Emigre, também influenciadoras do grafismo do portuense Quadrado.
Mas esta edição é significativa principalmente porque apresenta um notável novo autor de banda desenhada - Nunsky.  
Nunsky tinha já participado em números anteriores do MdC com diversas bd curtas de temática Punk'n'Roll (participou nos MdC #4, #7 e #8). Segundo o editor, neste volume "as influências de Charles Burns ou de Love & Rockets poderão ser óbvias, é certo, no entanto nunca foi feito um trabalho deste tipo, uma catarse de amor psycho-punk-goth, regada de referências de Série B. Uma estória de uma banda obscura cujo vocalista sofre de alcoolismo e obsessão psico-patológica por um amor impossível. Os ambientes de concertos suados, violentos e brutais, bem como da vida urbana são minuciosamente gritados acompanhados por uma bateria narrativa perfeita."
As referências apontadas são certeiras, às quais se pode acrescentar, entre outros, o 'Peter Pank' de Max, o desenho de Raymond Pettibon, o estilo visual e os registos fotográficos de bandas como os Bauhaus, Sisters of Mercy, Cramps, e toda a ambiência urbana gótica depressiva.
Ao regressar a esta publicação, volvidos cerca de trinta anos, redescubro com prazer algumas das mais memoráveis páginas da bd nacional.
88, Outubro de 1997, 40 págs., offset a preto & branco; capa a duas cores, 17x23cm. Edição: Chili Com Carne / FC Kómix [MdC #13].

26 março 2026

2125

Num futuro ano 2125, a autora imagina uma espécie de distopia invertida, onde um agente completamente improvável, percebido inicialmente como o invasor, acaba depois por funcionar como principal agente de mudança benigna.
Partindo de um presente caracterizado pela exaustão emocional, isolamento, e desconexão provocados pelo ambiente urbano frenético e desumanizado, induzindo um ambiente de extermínio do invasor, do estrangeiro, visto como uma praga, mas que em vez de sucumbir, consegue adaptar-se melhor às circunstâncias e prosperar contra todas as probabilidades.
Matilde Basto utiliza um dispositivo relativamente convencional de quatro vinhetas por página, mas enquadra-as por molduras com diferentes formas e motivos figurativos, conferindo-lhes bastante organicidade.
À semelhança do anterior Casal de Santa Luzia a autora volta a compor uma fábula onde animais comuns (dantes os gatos, agora as baratas) coabitam com os humanos em espaços urbanos onde se intui um ameaçador mal-estar, uma sensação de desajustamento, de não pertencer à cidade.
Inicialmente, as baratas são representadas como espectros luminosos, em ambientes pontilhados por formas estrelares (idênticas à forma do símbolo do Gemini, talvez a simbolizar uma inteligência superior), e num processo gradual de alteridade, conforme os insectos vão sendo melhor conhecidos e integrados no quotidiano da cidade, vão adquirindo formas mais definidas e simpáticas.
2125 foi realizado para a exposição virtual da 'StoryTellers' no Parque Silva Porto, em Lisboa, que decorreu entre Setembro e Dezembro de 2025.
2125, Dezembro de 2025, 24 págs., impresso a preto & branco; capa em cartolina cinzenta, 17x22cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #44].

24 dezembro 2025

Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno

Numa edição "Special XXXmas" do fanzine Mesinha de Cabeceira, foi lançado Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno, reafirmando o regresso demoníaco de Nunsky à banda desenhada, após uma longa ausência. Nadja é uma história de amor crepuscular, complementada com um substracto de Christiane F. assombrada por Marylin Manson, um colégio interno de freiras católicas, metaleiros alucinados, tudo selado nas chamas de um pacto com o diabo.
Nadja, uma ninfeta adolescente, perde o seu namorado devido a uma overdose fatal. Isto, uns dias antes de perder a virgindade, acto agendado para quando atingisse a maioridade. Desesperada, vai até ao Inferno e de lá regressa, com a missão de infundir o máximo de lascívia em todas as almas castas, colhendo assim os favores do diabo, transformados em dias na companhia do seu amado.
Nadja é tranquilamente conduzida pelos pais para um colégio de freiras, e imbuída dos seus novos poderes satânicos, logo inicia os seus jogos de tentação das jovens alunas. Nadja, conduz o grupo de virgens católicas no caminho da perdição, através das veredas ingremes da mitologia incendiária do sexo, drogas e heavy metal. 
Os desenhos de Nunsky alternam entre os tons nocturnos das vinhetas da dimensão terrena e as cores vivas do Inferno e das cenas com os metaleiros. O tipo de papel em que Nadja está impresso, dá a sensação que as pranchas ficam um pouco baças e pardacentas, o que acentua o tom crepuscular da história, mas também ofusca a definição, brilho e o impacto das composições mais flamejantes. 
Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno, Dezembro de 2015, 48 págs., impressão a cores, 16x23cm. Edição: MMMMMMRRRG [MdC #27].

22 novembro 2025

Casal de Santa Luzia

Casal de Santa Luzia foi desenvolvido por Matilde Basto no âmbito de um estágio da London College of Communication realizado entre Março e Maio 2022 na Chili Com Carne.
A história assume contornos misteriosos nas margens da grande cidade, onde os baldios são colonizados por bandos de gatos vadios. Os sinais. Uma ameaça paira no ar, sente-se que algo está para acontecer. Instala-se uma rotina claustrofóbica de fim dos tempos. Um mundo pós-humano, zombificado, onde os gatos são a espécie sobrevivente, assumindo-se como os novos senhores da zona à superfície.
O desenho também é algo surpreendente, oscilando entre o negativo arranhado dos gatos e dos gradeamentos e o traço baço e esborratado da tecnologia vigilante e controladora.
A solidão, os espaços abandonados, os gradeamentos que confinam e delimitam uma cidade negócio, privatizada e artificial. Os sinais. O puzzle que se vai compondo lenta e inexoravelmente.
Sara Figueiredo Costa escreveu na revista Blimunda que "o baldio dos gatos é um universo em si, um oráculo, uma “boca cósmica”, como se lê numa das vinhetas. É apenas um baldio ao lado da casa de quem narra, mas vai-se agigantando como algo mais. É na leitura dos sinais que essa concretização ganha o corpo possível, com a mudança a revelar-se na cidade e nas vidas de quem a habita. E é nesse momento que Casal de Santa Luzia se revela como eco da pólis, onde facilmente reconhecemos uma Lisboa presa nas malhas da especulação imobiliária, esse fenómeno que as secções de economia dos jornais tratam como algo intangível, explicando subidas e descidas de preços, mas que é, na verdade, uma espada real pendendo sobre as cabeças de quem aqui mora."
Casal de Santa Luzia, Maio de 2022, 52 págs., risografia a uma cor; capa a duas cores, 14,5x20cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #34].

18 julho 2025

Mesinha de Cabeceira

Mesinha de Cabeceira #0
O fanzine Mesinha de Cabeceira (MdC) começou a ser editado em 1992 por Marcos Farrajota e Pedro Brito, pelo que comemorou 30 anos de existência em 2022.
Este número inaugural, apresentava como temas o Outono e as aulas, pois a estação era o Outono e a malta do fanzine era jovem e com o fim das férias de Verão ia regressar às aulas. O MdC pretendia adoptar um tema para cada edição, mas ia logo avisando que havia flexibilidade relativamente a esta matéria, o que foi bastante sensato - eles eram jovens, mas não eram tontos!
São apresentadas bd de Marte e Pedro Brito, de Rui Lacas e de Miguel Falcato.
Na vertente de divulgação musical, é publicada uma entrevista a uma banda completamente desconhecida com o nome de "Coca Cola Mentol & Conflitos".
Na rúbrica "Críticas Crípticas", Arlindo Horta escreve uma resenha sobre a novela gráfica "Arkham Asylum" de Dave McKean.
Na secção de notícias curtas "Rapidinhas", uma vez que não se consegue alinhavar nada sobre os The Smiths e sobre o filme "Naked Lunch" de David Cronenberg, falam sobre a morte iminente de um super-herói da DC Comics e também sobre o concurso de cartoon Amadora/92.
Também são publicados textos "incoerentes e marados" da amiga Ana.
Conheço o MdC praticamente desde o início e é um fanzine muito especial para mim, uma vez que acompanhou em simultâneo o meu crescente interesse por publicações amadoras. Fui assistido às suas diversas mutações: fanzine colectivo, outras vezes monográfico; da fotocópia à serigrafia; do preto & branco à impressão a cores; os vários tamanhos e formatos, os diversos tipos de papel, autores portugueses e estrangeiros... Ao longo de mais de 40 edições, o MdC apresentou-se sempre diferente, mas com uma notória evolução no trabalho de edição e publicação a cada novo número.
Muito mais haveria a dizer sobre o MdC, mas a melhor homenagem que lhe posso prestar é voltar a pegar nas suas edições, rever e ir deixando aqui algumas notas pessoais.
Julgo que me faltam alguns dos números iniciais, uma vez que o Marcos sempre recusou fazer reedições... O que faz algum sentido, quando se acredita que o melhor é o que está para vir!...
Mesinha de Cabeceira #0, Outubro de 1992, 24 págs, fotocópia a preto & branco; capa em papel cor laranja, 14,9x21cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: FC Komix.

Mesinha de Cabeceira #2 / #3
Número duplo editado por Pedro Brito e Marcos Farrajota, em estilo split-zine. A capa exterior é da autoria do artista Pedro Proença. Na capa da parte "Algumas Estórias Absurdas" (#2) surge uma colagem de Ana Dionísio, seguindo-se a bd "A Maldição do Pénis" de Arlindo, uma bizarra história negra, muito bem desenhada e ainda melhor escrita. Depois, duas pranchas de Guima (Ricardo Tércio), com muita confusão e cabeças mutantes. "Abuso de Menores" é uma bd de Lacas, envolvendo relações incestuosas e depravação.
Na parte "New Kids on the Bollocks" (#3), apresentam-se novos personagens e colaboradores a debutar nas páginas do MdC. Há uma prancha de "Alice - The Real Girl" com argumento de Marte e arte de Pedro Brito (também autor da capa desta parte). Depois um Folhetim Interactivo por Arlindo. Pelo meio, surgem umas tiras envolvendo complexos de Édipo, soldados bósnios e Joseph Volverin, por Miguel Falcato e Marcos Farrajota.
Nas "Críticas Crípticas" procede-se a uma recuperação engendrada por Marcos Farrajota de um texto de Domingos Isabelinho recolhendo uma série de "pérolas" encontradas nos escritos sobre bd publicados na imprensa nacional, atribuindo-lhes um galardão e tudo!
Antes de terminar, há ainda espaço para "Play Rats" de João Tércio.
Mesinha de Cabeceira #2/3, Setembro de 1993, 28 págs, fotocópia a preto & branco, 14,9x21cm. Tiragem: 150 exemplares. Edição: FC Kómix. Barreiro.

Mesinha de Cabeceira #4
O tema deste quarto número "sangue novo", pretende dar visibilidade a novos autores ainda por publicar. A capa e contracapa são assinadas por Sandro. A primeira banda desenhada, intitulada "Folhetim - Parte 5" começa sempre com o mesmo pressuposto, derivando para desfechos diferentes. Segue-se "Lisboa Dá à Luz" por Vitor Santos, uma cidade em processo de transformação, parindo novos edifícios.
Na rúbrica "Criticas Crípticas", Marcos Farrajota relata os principais eventos do 7.º Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto. Depois, Deo apresenta a prancha "A Companhia dos Monstros". Logo de seguida, somos surpreendidos com a primeira bd de Gregório, às voltas com a sagrada trilogia do sexo, drogas e morte, que assombra a existência de muitos artistas.
Novo capítulo de "Criticas Crípticas", com Marcos Farrajota a insistir na banda Coca Cola Mentol & Conflitos (ver MdC #0).
Pedro Brito apresenta "Tédio!" bd sobre a falta de inspiração e de algo interessante para fazer. Antes da nova secção de correio dos leitores, é publicada uma ilustração de Pedro Proença. Nas páginas centrais, duas pranchas por Maria João.
Mira apresenta uma "bd montagem", sequenciando uma série de vinhetas de proveniências e estilos diversos, procurando uma possível narratividade. Depois, vem "Playrats" por João Tércio e uma nova bd de Gregório, desta vez, com guitarras distorcidas e multidões em delírio.
"Inadaptados" marca a estreia de Nunsky, com a bd mais extensa, exibindo todo o catálogo de criaturas que habitam o submundo da grande selva urbana: drogados, vagabundos, prostitutas e inadaptados. Quando os skinheads se cruzam no caminho, segue-se uma orgia de sangue e vísceras de carecas nazis, arrancadas a golpes de motosserra.
Mesinha de Cabeceira #4, Janeiro de 1994, 32 págs, fotocópia a preto & branco, 14,9x21cm. Tiragem: 115 exemplares. Edição: FC Komix. Barreiro.

Mesinha de Cabeceira #6
A capa é da responsabilidade de Pedro Brito, que também desenha a bd "Homem-Transferidor", baseada no argumento de Marcos Farrajota. Segue-se a prancha "Ovelhas" de José Carlos Fernandes e também "Uma História de Amor" de Marcelão, editor do fanzine Over-12.
Destaque para a publicação de uma entrevista com Estrompa, responsável pelos fanzines Shock e Café no Park.
"Loverboy - O Empatas Industrial" da autoria de Marte, com o Loverboy a recorrer a todo o tipo de expedientes para tentar safar-se das suas responsabilidades "conjugais".
As últimas páginas são dedicadas a trabalhos rejeitados e à divulgação de prémios e concursos.  
Mesinha de Cabeceira #6 (1.ª edição), Outubro de 1994, 24 págs, fotocópia a preto & branco, 21x14,9cm. Tiragem: 30 exemplares. Edição: FC Komix. Barreiro.

Cerca de meio ano após a edição original, surge a 2.ª edição "aumentada e melhorada". Relativamente à primeira edição, desaparece o Loverboy e em contrapartida, entram novas bd: um cão americano tipo Pluto a mimetizar cenas do filme "Apocalypse Now"; "Playrats" de João Tércio; uma prancha humorística da dupla Geral & Derradé e também alguma bd autobiográfica de Marcos Farrajota. Há uma melhoria nítida na qualidade de reprodução das fotos do Estrompa a acompanhar a respetiva entrevista - era uma pena umas fotos tão boas estarem tão mal impressas!
Nesta nova edição há também mais texto como as "Críticas Crípticas" que versam sobre várias edições da responsabilidade de José Carlos Fernandes e também curtas resenhas sobre os novos números dos fanzines Classe Média e do BadSummerBoys. Outra novidade é a publicação da "Lista de Ódio" do Marcos e uma lista de nomes brasileiros muito bizarros.
Mesinha de Cabeceira #6 (2.ª edição), Fevereiro de 1995, 32 págs, fotocópia a preto & branco, 21x14,9cm. Tiragem: 100 exemplares. Edição: FC Komix. Cascais.

Mesinha de Cabeceira #10
Editado por Marcos Farrajota / FC Kómix, em colaboração com a Associação Chili Com Carne, conta com capa e bandas desenhadas de Marcos Farrajota. A primeira parte deste número é preenchida com "Histórias de Noitadas, Deprês & Bubas", num estilo diarístico, algumas vezes escorregando na irrelevância, outras vezes (os melhores momentos) num estilo autobiográfico, que nos suscita a dúvida se o autor não estará a divagar e a ficcionar a sua vida e intimidade.
Segue-se a rúbrica "Críticas Crípticas" comentando diversas publicações alternativas como "Malus" de Christopher Webster e "Sourball Prodigy" de Mike Diana, ambas posteriormente editadas por M. Farrajota. No tocante aos fanzines nacionais, notas sobre Sub #1, Shock #19, Aardvark #3 e Atelier de Técnicas Narrativas - Curso de Banda Desenhada.
Daniel D. (Dias) apresenta uma bd sanguinolenta em duas pranchas. De seguida, um extenso artigo "Tolerância Zero" escrito por Mike Diana, narrando o seu caso com o sistema judicial americano devido ao seu fanzine "Boiled Angel".
Na última página, o "Rejeitados #8", com um desenho da Mariazinha por Rui Lacas, feito para um poster que nunca chegou a ser impresso.
Mesinha de Cabeceira #10, Novembro de 1996, 32 págs, fotocópia a preto & branco, 21x21cm. Tiragem: 150 exemplares. Edição: FC Komix. Cascais.

Mesinha de Cabeceira #11


Mesinha de Cabeceira #11, Março de 1997, 32 págs, fotocópia a preto & branco, 21x21cm. Tiragem: 150 exemplares. Edição: FC Komix. Cascais.

Mesinha de Cabeceira #12


Mesinha de Cabeceira #12, Julho de 1997, 32 págs, fotocópia a preto & branco, 21x21cm. Tiragem: 150 exemplares. Edição: FC Komix. Cascais.

17 junho 2025

Diário da Palavra

Diário da Palavra resulta de um estágio profissional realizado por Rodrigo Villalba entre Março e Abril de 2022 na Associação Chili Com Carne. Diariamente, era fornecida uma palavra ao autor para "activar a sua memória e os músculos da narração num formato simples (e velha guarda) que é a "tira humorística"."
Tivemos oportunidade de acompanhar diariamente o desenvolvimento deste trabalho através da publicação no blogue da Chili Com Carne das quarenta tiras produzidas por Rodrigo Villalba (não constam neste volume impresso, as tiras 39 e 40).
No geral, o esquema gráfico é relativamente conservador, preservando quatro quadrados por página, mas o estilo do traço e as técnicas utilizadas são muito diferenciadas, formando uma polifonia caleidoscópica de grafismos e cores.
A palavra que serviu de gatilho para cada uma das tiras nunca é desvendada, pelo que só podemos intuir que foram muito variadas (??kebab, peso, ressaca, lágrima, etc.), e que permitiram ao autor explorar uma grande polissemia de percursos estilísticos e de soluções narrativas, umas vezes de cariz mais autobiográfico, noutras sobressaindo o humor ou o comentário social. 
O programa seguido neste breve percurso académico, privilegiou o desafio diário e a descontinuidade, e também uma certa falta de coerência, e que facilmente poderia ter descambado no exibicionismo tecnicista. Mas o registo adoptado, a sinceridade e a humildade, associadas à qualidade geral dos trabalhos, levam-nos a concluir que este estágio profissional foi um grande triunfo na formação de um promissor novo autor.     
Diário da Palavra, Dezembro de 2022, 40 págs., impresso a cores, 14x14cm., Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #38].

14 abril 2024

Super Fight II

Para comemorar os dez anos de existência do fanzine Mesinha de Cabeceira, foi publicado Super Fight II: Grosz vs Lemos, reunindo dez desenhos impressos em serigrafia a preto e branco. Os desenhos são apresentados na página do lado direito, estando a página esquerda em branco. Apesar de ser anunciado na capa como um combate entre dois pesos pesados (ambos com ar descontraído), trata-se essencialmente da colisão entre dois universos gráficos e simbólicos, um cadavre exquis. André Lemos apropria-se do trabalho de George Grosz, interioriza-o, assimila-o na sua própria corrente sanguínea, expelindo-o numa nova força gráfica recontextualizada e revitalizada.
Por vezes, observamos figuras como o colossal e repugnante grande capitalista de "I shall exterminate everything around me that restricts me from being the master" (1921), ao qual Lemos contrapõe um mordomo de bandeja na mão e uma criança nua e esquelética, com sombras inumanas projectadas no chão.
Sucedem-se composições titânicas envolvendo desenhos de Grosz, que Lemos absorve e reconfigura no espaço, desenhos trabalhados como se fossem colagens. Elementos característicos de Grosz como as fábricas geométricas e fumegantes, os subúrbios de quadriculados tijolos ou gradeamentos, com gente a espreitar à janela, assistindo amedrontada e impotente à exploração, guerra, fome e todo o tipo de violência. André Lemos luta de forma eximia na ocupação do espaço, principalmente no lugar que as figuras ocupam no espaço, e tal como Grosz muito pouco preocupado com as leis clássicas da perspectiva.
Os desenhos expressionistas de George Grosz caricaturais e satirizando os ricos e poderosos, implacáveis nos seus traços cruéis, como em "Toads of Property" (1921), são exponenciados por Lemos através de novas camadas de significado, conferindo aos desenhos outras dimensões surrealizantes.
Este duelo de titãs teve uma edição limitada e assinada de 199 unidades, das quais 60 exemplares eram acompanhados por um ex-libris.
Super Fight II, Outubro de 2002, 24 págs., serigrafia a preto & branco; capa a preto e vermelho, 23x31,5cm., Tiragem: 199 exemplares. Edição: MMMNNNRRRG [MdC #16].

30 novembro 2023

A Fábrica de Erisicton

Fico espantado com a quantidade gigantesca de livros que são publicados actualmente. Florestas inteiras de papel impressas com todo o tipo de inanidades e de vacuidade. A esmagadora maioria vai, certamente, acabar nas debulhadoras de reciclagem, resultado da mais completa indiferença e esquecimento.
No entanto, as paredes e sombras erguidas por estes livros inanes ocultam e obliteram os outros livros que valem a pena ler, soterrando-os para os confins da vista.  
A Fábrica de Erisicton é um manifesto eco-activista inspirado no livro VIII das "Metamorfoses" de Ovídio, baseando-se na história da mitologia grega do rei Erisicton que depois de cortar com um machado uma árvore sagrada, é castigado com uma fome insaciável, que o vai obrigar a devorar-se a si próprio.
A sobre-exploração dos recursos e da terra pelas culturas intensivas que se multiplicaram na paisagem alentejana, são o pano de fundo desta metáfora desencantada.
O desenho colorido psicadélico e naif de André Ferreira, profundamente poético sem ser panfletário, devolve-nos uma imagem irreal e delirante, mas simultaneamente tão próxima e implacável, resultante de um capitalismo tardio, cujo último estertor prolonga-se agonizante, mas sem permitir vislumbrar o que se seguirá.
Como assinalou Mark Fisher "o capitalismo está de facto talhado para destruir todo o meio humano. A relação entre capitalismo e desastre ecológico não é uma coincidência nem um acidente: a «necessidade de um mercado em constante expansão» do capital, o seu «fetiche do crescimento», significa que o capitalismo se opõe pela sua própria natureza a qualquer conceito de sustentabilidade."
Com toneladas de livros inúteis espalhados por todo o lado, a edição de singelos 100 exemplares de A Fábrica de Erisicton está esgotada, o que se lamenta, pois este volume devia estar permanentemente disponível e com o autor em digressão ininterrupta pelas escolas, integrando um plano de leituras e de discussão transversal a diversas disciplinas curriculares.
A Fábrica de Erisicton, Abril de 2021, 28 págs., impressão a cores, 18x25cm., Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #29].

28 setembro 2023

Diários dum Cão Danado

Em época de comemoração de três décadas de actividade, o Mesinha de Cabeceira tem estado imparável: - mais de dez novas publicações no espaço de um ano!!!
Esta edição #41, corresponde a uma compilação de desenhos seleccionados dos diários gráficos mantidos por Giancarlo Apollini, no período entre 2020 e 2023.
Diários dum Cão Danado abre com um coelho branco e uma chave dourada, estimulando a curiosidade para o seguir, introduzindo-nos na toca para desvendar que estranhos segredos se ocultam no seu interior. Logo nas primeiras salas, confrontamo-nos com os bichos, carcaças devassas, as meat paintings de Francis Bacon assombradas por Rembrandt.
Logo depois, sem tempo para recuperar o folêgo, desagua-se no peep show, a central do voyeurismo, visões fetichistas de uma feminilidade toldada pela obsessão, as nádegas generosas e os saltos altos, mulheres atadas com cordas meticulosamente dispostas, expostas à erotização do olhar, num estranho jogo de interdição, inebriados pelo sensual cheiro a morte e desejo.
Figuras, torsos amputados, representados contra um fundo plano - Bacon novamente.
Uma breve incursão no espaço do museu, vetusta catedral erigida em louvor do voyeur.
A ilusão, as imagens fotográficas exibidas através dos filtros que operam novas magias nas redes sociais - a girl magic box. A vaidade vã. | Vanitas |. A caveira, como marco miliário, a recordar a insignificância da vida e a efemeridade da vaidade.
O que é que Fellini, Hitchcock e Buñuel têm a ver com tudo isto? Têm tudo, pois criaram estranhos objectos de desejo, decompostos em perturbadoras fantasias de transgressão, moldando definitivamente o nosso olhar. 
A recorrência, a fixação e reentra-se nos dispositivos do desejo, a contemplação sem toque, evitando uma aproximação excessiva. A potência erótica, o jogo da sedução. A mulher objectificada, o olhar devorador focado exclusivamente na parte do corpo fetichizada.
Segundo Barthes, a imagem pornográfica é uma imagem monótona, porque já não tem nada a esconder, sem mistério, cancela o prazer proibido. Aqui, pelo contrário, há mistérios por desvendar... Palavras e frases pairando, abertas ao fortuito acaso.
Diários dum Cão Danado constitui-se como um panóptico carregado de potência erótica, trajando luzidios fatos de latex, onde um fecho-éclair metalizado abre um interstício, rasgando uma fenda entre a realidade quotidiana e a fantasmagoria da solidão.
Diários dum Cão Danado, Maio de 2023, 40 págs., impressão a preto & branco, 14,9x21cm., Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #41].

11 junho 2023

Chicão

Primeira banda desenhada publicada por Ângela Cardinhos, realizada no âmbito de um estágio de Educação e Formação de Adultos, que decorreu entre Novembro de 2021 e Janeiro de 2022.
Glosando o nome de um jovem político de direita com carreira meteórica, Francisco Rodrigues dos Santos (Chicão para os amigos), a autora parte de um universo intimista e romântico, cruzando-o com diversas temáticas candentes da actualidade, como sejam os problemas das famílias nucleares, a depressão, a solidão, o papel que os animais domésticos representam, a omnipresença da tecnologia e dos gadgets, a novilíngua capitalista, entre outros.
A banda desenhada começa com duas páginas com desenhos a negativo de um par em cenas românticas, seguindo-se, ainda em tons nocturnos, a localização numa rua popular. Depois um quarto, que parece o quarto de Van Gogh em Arles.
Apesar da designação Chicão, as questões de índole politico partidárias, não são exploradas, surgindo apenas na sua vertente simbólica, seja um cartaz na sala, com o símbolo da Juventude Monárquica; ou um pequeno pin do CDS/PP, que cai acidentalmente de uma camisola. Símbolos de pequenos partidos de causas perdidas.
A narrativa vai avançando em tom intimista, com alguns lampejos inquietantes aqui e ali, mas nada nos prepara para o desfecho trágico e surpreendente da história. Em suma, uma estreia muito auspiciosa de Ângela Cardinhos.
Chicão, Maio de 2022, 44 págs., impressão a preto & branco, 14,9x21cm., Edição: Chili Com Carne [MdC #33].

04 maio 2023

Artblock

Tomás Ribeiro, estudante na  ESAD nas Caldas da Rainha, realizou um estágio profissional entre Outubro 2022 e Janeiro 2023 na Chili Com Carne, e o fanzine Artblock é o corolário do trabalho desenvolvido nesse período.
No blogzine da Chili Com Carne, Mao comentou isto sobre a publicação: "...o autor vira o bico ao prego e transforma o vazio do Artblock em matéria de criação artística, quebrando com as regras da realidade conhecida ao ser capaz de gerar qualquer coisa a partir do nada. Para perceber de onde vem o bloqueio artístico, o zine tem que o tornar tangível para lhe seguir o rasto, experimentando com várias matérias para o enformar. É uma mosca, é uma caixa negra, é um espaço em branco no centro da prancha deixado intocado enquanto um turbilhão de formas orgânicas (talvez o narrador?!) o cercam ameaçadoramente. A forma é importante, não só porque é o que o Artblock só pode ter por empréstimo, mas também porque o autor tortura a figura humana para lá do reconhecível, e porque a procura de uma forma para o Artblock resulta num apontamento sobre as convenções formais da banda desenhada: uma vinheta continua a ser considerada uma vinheta quando o representado não é o que ela encerra, mas sim o que a encerra? Curiosamente, todo o exercício parece o reverso de uma questão milenar que preocupou artistas e poetas (e, infelizmente, também aos seus fãs): de onde vem a inspiração? Será que estivemos a fazer a pergunta errada este tempo todo? Estamos perante uma estreia auspiciosa."
Artblock, Fevereiro de 2023, 36 págs, impressão a preto & branco, 15x15cm., Tiragem: 100 exemplares. Edição: Chili Com Carne [MdC #39].

06 janeiro 2023

Forceps

Folheando "Forceps" de R. Paião Oliveira, instintivamente somos remetidos para a dimensão harmoniosa e infalível dos manuais de instruções de montagem da IKEA, apresentados em linguagem Lego, com cores lisas e tons tranquilizadores.
Apesar do aparente esquematismo inicial, vislumbra-se uma leve cadência em lenta progressão, uma bem ensaiada coreografia mecânica e precisa a acontecer diante dos nossos olhos. Em suave dinâmica Minecraft, peça por peça, um procedimento após outro, e eis que surge um mundo novo - camada em cima de camada, cada vez mais complexo, totemizado, inexpugnável e arrogantemente vertical.
De repente, algo surge ameaçador no horizonte...objectos voadores, que se dirigem imparáveis contra as duas torres siamesas. O rombo na estrutura é notório, mas a destruição não opera os resultados esperados. Os elementos primordiais reagem e de forma orgânica e simbiótica, com sequências a acontecerem em cadeia, por reprodução ou por simetria, movidos por uma febril força criadora que se expande galopante, acumulando cada vez mais elementos.
O novo novo mundo aí está refeito, mais complexo e simultaneamente orgânico, uma emulação dos dispositivos tridimensionais  pixelizados, esféricos e novamente perfeitos.
Eis uma mulher, o ser feminino - o principio e o fim de tudo, uma esperança que se renova. Afinal, parece que nem tudo estará irremediavelmente perdido... 
Forceps, Outubro de 2022, 36 págs, impresso a cores, 18x25cm. Edição: Chili Com Carne [MdC #37].

14 dezembro 2022

Hot

"A edição #32 do Mesinha de Cabeceira, publicação polimorfa que já foi fanzine fotocopiado na velha escola e encadernação com lombada, de autoria individual ou colectiva, é assinada por André Ruivo. Hot é um livrinho onde a nudez, a intimidade e o sexo se mostram em linhas claras e cores saturadas, sempre com um olhar terno, atento aos pequenos gestos da comunicação e do toque. Um homem e uma mulher compõem o par que entra nesta dança do desejo, ambos munidos de um corpo que se revela sem vergonhas e de uma vontade de chegar ao outro que implica diálogo e negociação com vista ao prazer. Como sempre, as imagens e as pequenas narrativas que se vão estruturando nascem de desenhos falsamente simples, uma linha que define a forma e manchas de cor que lhe dão contraste, textura e movimento, guardando-se em cada composição um manancial de sentidos, pequenos pormenores sobre o modo como nos relacionamos, como pensamos, como podemos perder-nos em tantos “ses” e “porquês”, como o humor é também uma partilha. Por entre a nudez explícita e o sexo sem cortinas para disfarçá-lo, Hot é um livro delicado e muito perspicaz sobre o desejo e as suas esquinas e também sobre como nos encontramos a nós mesmos/as quando nos perdemos num corpo alheio." - texto de Sara Figueiredo Costa em Livros para atravessar a semana.

Hot, Abril de 2022, 20 págs., impressão a cores, 14,5x21cm., Edição: Chili Com Carne [MdC #32].

30 junho 2010

Allen

O Mesinha de Cabeceira (MdC) editado por Marcos Farrajota é um dos fanzines com maior longevidade em Portugal, mantendo-se ainda em publicação. Depois dos primeiros números editados no bem velho estilo da fotocópia, começou a ser impresso em gráfica a partir do n.º 13. O Allen que aqui se apresenta, da autoria de Isabel Carvalho é o 14.º tomo da publicação, embora se apresente como o 41. Esta maluqueira da numeração dos fanzines, que só serve para complicar a vida aos coleccionadores e bibliotecários, é apanágio de muitas publicações como o Bizarro, O Hábito Faz o Monstro, Zundap, etc., à qual o MdC também aderiu.
Allen foi publicado como resultado do primeiro prémio de um concurso de banda desenhada organizado pelo Instituto Superior de Humanidades e Tecnologias (ISHT) e por Marcos Farrajota em 2000. Isabel Carvalho, a autora de Allen, tem um longo percurso em inúmeras publicações como A Língua, Satélite Internacional, Anakeila, A Rata, Wanda, entre muitas outras.
A tiragem de 1000 exemplares encontra-se esgotada, havendo apenas a possibilidade de descarregar um PDF gratuito da publicação no site da CCC.
Allen / Mesinha de Cabeceira #41, Outubro de 2000, 16 págs., impresso a preto & branco; capa a 3 cores, 17x23cm. Tiragem: 1000 exemplares, edição agrafada - ISBN: 972-98177-1-5

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