08 setembro 2026

Rain in Tears

Encontram-se diversas resenhas sobre este trabalho de Mao. Transcrevo duas das mais interessantes. A primeira é da autoria de Justin Giampaoli no blogue Thirteen Minutes. Segue em tradução livre do inglês: "Rain in Tears começa com uma premissa interessante: "E se as ferramentas de opressão de 'Blade Runner' fossem usadas, em vez disso, para a libertação?" A arte de Mao tem um toque de mangá, com vinhetas repletas de detalhes pixelizados e planos em perspectiva que conferem uma sensação de velocidade e movimento à narrativa, adequando-se aos avanços biotecnológicos progressivos que a história explora. Os rostos das figuras humanas são retratados de maneira muito interessante, parcialmente ocultos por sombras ou modificações deliberadas — como semblantes tecno-orgânicos que lembram máscaras avançadas ao estilo Kabuki. Gostei da inclusão da "Medusa", uma espécie de programa de computador senciente ou IA que monitora as experiências com as criaturas marinhas. A obra transmite a sensação de uma ficção especulativa de vanguarda, à medida que a Medusa toma decisões — sejam actos deliberados ou omissões casuais — que colocam os humanos no fogo cruzado de acusações. Tudo isso desenrola-se como uma fábula de advertência que contrapõe e emoldura a questão tecnológica inicial da bd com um dilema mais natural para o desfecho: "A Natureza é uma mãe benevolente que cuida de nós ou um horror lovecraftiano que se devora a si mesmo?" Rain in Tears é uma obra fascinante que opera no registo do horror tecnológico, com tons cáusticos de amarelo e rosa na arte que alertam para as questões perigosas subjacentes."
A segunda resenha é de Pedro Moura, publicada no blogue LerBD: "Os interesses e campo de experiência de Hugo Almeida, a.k.a. “Mao”, continuam a incidir numa densa e intrincada rede de cruzamento das consequências das possibilidades que a técnica tem trazido de forma cada vez mais dramática nas determinações biológicas. Isto é, não tanto simplesmente a intervenção externa sobre o biológico da parte da técnica via a soteriologia (através de ferramentas, fármacos, cirurgia, prostética), mas algo que reconfigura a própria ontologia da vida.
À primeira vista (que na verdade nunca o é, pois o autor não está interessado em ilusões simples), o livro parece ter uma intriga de fc. Só que a travessia pelas páginas coloca-nos num mundo laboratorial e de ciências “duras” que conseguem manipular o ADN como os poetas DADA brincaram com o alfabeto. Estão aqui presentes os ecos de campos contemporâneos como os da engenharia epigenética, a edição CRISPR, o uso do sistema de IA AlphaFold, e outras nano- e macro-coisas de que nem sei a missa a metade. Mao “disfarça” tudo isto com uma pequena intriga tirada de um thriller de ficção científica, como se tivéssemos chegado a meio de um filme. Um laboratório que parece querer contornar certas regras deixa que um polvo, geneticamente alterado, escape para o mundo natural e isso poderá vir a ter consequências desastrosas. Fanfiction de uma “lab leak theory”, portanto, as coisas são relativamente simples e céleres em termos de acções. Todavia, a força de Mao está em todas as camadas que actuam, a um só tempo, como textuais e metatextuais – as pop-up Windows, o acesso a emails e mensagens que temos, os chats. (mais)
Pois o central nem será tanto essa mesma “intriga central”, mas o drama humano em torno das condições de trabalho: financiamento, crises de comunicação, liderança das equipas, interesses cruzados entre empresas, governos, medicina e outros campos, etc. Em uma pequena dezena de páginas, Mao cria um torvelinho com todos esses ingredientes. E a própria linguagem que emprega – note-se nos nomes das embarcações (“Phorcys”), dos programas (“Medusa”), até mesmo algumas palavras empregues pelas personagens (“Kraken”, “lovecraftian”), e perceberão a, perdoem-me, “salada de moluscos”.
Uma outra dimensão, paradoxal, é a exploração daquele género conhecido por tentacle porn (aconselho vivamente a NÃO pesquisarem o termo), isto é, a de cenas titilantes envolvendo alguma criatura provida desses membros flexíveis. O mais famoso exemplo histórico (sem ser “o primeiro”) é de Hokusai, mas a sua explosão nas mentes ocorreu em 1987, com a versão anime de Urotsukidōji. Digo “paradoxal” em relação ao livro de Mao pois nunca surgem cenas explícitas dessa sexualidade, mas ela é claramente exposta, e ficará reservada à nossa imaginação. Tal qual o título parece implicar, e é ainda mais exposto numa espécie de introdução, há uma clara referência ao discurso do replicante Roy Batty, em que se fala de “ter visto coisas que vocês [humanos] não acreditariam”. Portanto, de certa forma, ao jogar com essa ausência, Mao demonstra como haverá sempre uma outra dimensão, além-do-humano, inalcançável, de possibilidades visíveis.
Se até à recente, o conceito de Foucault da biopolítica operava através de instrumentos como estatísticas, políticas de saúde pública, sistemas de educação e redes de vigilância, estamos na linha de passagem (ou já passámos? Campo difícil de destrinçar entre a conspiração e o conhecimento científico) para um nível interior à vida (bio): a nível dos sistemas imunitários, células e genes, microbiomas e processos moleculares…
No fundo, é a invasão do design na evolução, em que as “condições de possibilidade” se libertam dos imperativos e determinações biológicas, o “natural” pode ser engineered, o vivo programável a “nosso” bel-prazer.
E com essas potencialidades, o livro termina com uma cena possível, um apocalipse diluvial. Que fazer? O que o protagonista faz? Cantar como Nero num karaoke bar, uma canção dos Pulp."
Rain in Tears, Setembro de 2025, 28 págs, offset a cores; capa cartonada, 10,5x14,8cm. Edição: kuš! Letónia [Mini kuš! #136].

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